sábado, 14 de março de 2009

PEDRO E O LOBO (Peter and the wolf – EUA; 1946)


Despretensiosamente, em uma madrugada insone, coloquei-me a assistir vídeos no youtube até chegar a esse curta-metragem assinado pelos estúdios Disney no final da década de 40. Lembro-me de ter assistido a Pedro e o Lobo quando criança, mas realmente não recordo exatamente há quanto tempo – embora presuma que haja um hiato de mais de quinze anos entre a primeira e a segunda vez que assisti ao filme. Independente disso é inacreditável a sensação de retornar a infância através do uso de uma nova mídia tal qual a internet – se não fosse o youtube, provavelmente nunca mais assistiria essa animação baseada na obra do russo Serguei Prokofiev.

Prokofiev compôs Pedro e o Lobo em um contexto de extremo controle do estado sobre a produção artística – estamos falando da União Soviética em meados da década de 30. Dizem que, no objetivo de satisfazer o governo de Stalin, o compositor criou uma obra cuja função ganharia aspectos pedagógicos; para tal Pedro e o Lobo seria uma narrativa infantil contada em música. Cada personagem seria representado pela sonoridade de um instrumento ou um conjunto deles e, dessa forma, seria possível apresentar às crianças a diversidade de instrumentos que formam uma orquestra.

Assim sendo, ao transportar a história para os traços da animação, Disney não abriu mão da premissa de Prokofiev e, antes de iniciar o fio condutor do conto, o narrador não esquece de explicar ao espectador quais instrumentos representam cada personagem. Pedro é representado pelo quarteto de cordas (geralmente dois violinos, uma viola e um violoncelo), enquanto que o Lobo se faz representar por três trompas. Os outros personagens – o avô, o pássaro Sasha, a pata Sonia, o gato Ivan e os caçadores com suas armas – são representados por um fagote, uma flauta, um oboé, um clarinete e instrumentos de percussão (tímpanos, pratos e bumbo) respectivamente. Cada instrumento é responsável por criar o motivo condutor ou leitmotiv – que seria o tema musical – de casa personagem. A simplicidade é o que permeia a narrativa, que se limita a demonstrar a aventura de uma criança russa a qual, contra as indicações de seu avô, resolve sair de casa em busca de um lobo, usando para isso apenas sua espingarda de brinquedo. No caminho, o jovem Pedro, Peter ou Pierre (como preferir) acaba encontrando um passarinho, uma pata e um gato e juntos eles irão enfrentar o lobo mau do título. Um título cuja estrutura já demonstra o maniqueísmo presente na história.

Entretanto, apesar da premissa simples, Pedro e o Lobo aborda, mesmo que de forma sutil, alguns elementos sobre amizade, infância (a imaginação é uma coisa maravilhosa) e a eterna busca de ser lembrado por algum feito (relembro a resenha sobre O Assassinato de Jesse James).

O curta Pedro e o Lobo foi produzido como parte de um longa-metragem chamado Música Maestro! cuja estrutura tentou remeter ao clássico Fantasia. Todavia, o resultado não foi semelhante e o filme – feito com baixo orçamento, tendo em vista o contexto de guerra mundial da década de 40 – não recebeu boas críticas (nem mesmo do próprio Walt Disney), sendo que Pedro e o Lobo acabou se tornando o segmento mais bem sucedido.

Já que estou me referindo a um curta, não custa nada postar o vídeo aqui no blog. São duas parte pequenas, narradas em inglês. Como eu disse no início do post: é inacreditável voltar à infância.






domingo, 8 de março de 2009

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford – EUA; 2007)


Direção: Andrew Dominik

A História nos mostra como são usuais os casos de assassinatos envolvendo ídolos e seus fãs. Gandhi e John Lennon são exemplos recentes, ocorridos na segunda metade do século passado. Entretanto, conforme nos apresenta o filme de Dominik, esses episódios não são tão recentes. No final do século XIX, o jovem Robert Ford – um apaixonado pelas aventuras dos irmãos James – acaba por assassinar seu ídolo, Jesse James, de forma covarde, despertando na população local as mais diversas reações, dentre as quais o repúdio.

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford não precisa ter sua premissa explicada por razões óbvias, o título do filme é, praticamente, a sinopse do mesmo. Mas o roteiro de Andrew Dominik (que assina a direção) explora muito mais que um simples ato criminoso. A narrativa vai muito além das ações físicas, explorando de forma intensa a ação psicológica da trama – o que depreende a necessidade de um trabalho muito mais cuidadoso na montagem dos personagens. E não podemos negar que as opções artísticas feitas pela dupla principal Brad Pitt (James) e Casey Affleck (Ford) são excelentes, resultando em atuações completas e que impressionam em cada olhar – reparem no olhar dos dois na cena capital e, não posso deixar de comentar a voz que Affleck impõe a Robert Ford. O elenco é extremamente correto nos mínimos detalhes e faço destaque a sempre maravilhosa Mary-Louise Parker (uma das poucas mulheres em um elenco basicamente masculino). O que me lembra que estamos dissertando sobre um filme de gênero extremamente masculino. Os antigos filmes de bang bang sempre soaram bem masculinos, com mocinhos e vilões que não se intimidavam em mostrar sua masculinidade andando a cavalo, brigando em bares ou empunhando um revólver. Os tempos mudaram e O Assassinato de Jesse James surge após um bom tempo sem grandes filmes de western para mostrar que a masculinidade não passa apenas por atos, mas também por pensamentos (não é a toa que os tiros não são freqüentes na película, aparecendo apenas quando necessários).

Estamos diante de um jovem (Ford) que nem chegou aos vinte anos e que deseja fazer algo de grandioso – o que, de certa forma, é inerente à juventude (todos queremos fazer algo para sermos lembrados – vide o Aquiles que o próprio Brad Pitt interpreta no equivocado Troia). Sua fama acaba vindo através de um ato de traição e covardia, uma vez que acaba assassinando seu ídolo e companheiro de bando. E, aqui, Dominik acerta mais uma vez em optar por demonstrar a tensão, não somente do desenvolvimento que leva ao crime, mas as consequências as quais o crime desperta. Assim, a opção de não finalizar a narrativa imediatamente após o assassinato do título é a ideal para explorar os mistérios que perseguem a psique do jovem Bob – as verdades que não conhecemos quando somos muito imaturos para a vida.

Com uma fotografia belíssima e um ritmo desacelerado, acompanhamos essa tensão psicológica que envolve a dupla que dá nome ao filme. O ato final é surpreendente – não pelos acontecimentos que já são conhecidos desde o momento em que pensamos “hoje, vou assistir O Assassinato de Jesse James”. As conversas – escassas durante todo o desenvolvimento do filme – se tornam um jogo entre James e Ford, os olhares e as ações também, levando o espectador a pensar: “até que ponto Jesse James sabia que Robert Ford o mataria?” e não consigo parar de pensar num inverso – “até que ponto Ford sabia que iria matar James?“.

Sem dúvida, O Assassinato de Jesse James foi um filme subestimado pelas premiações de cinema de 2008. Suas duas indicações ao Oscar não fazem jus a beleza ímpar desse western psicológico que conta com uma das melhores atuações da carreira de Brad Pitt e com o talento de Cassey Afleck (que, cada vez mais, me convence de ser mais talentoso que seu irmão Ben).

sábado, 7 de março de 2009

MOULIN ROUGE! – AMOR EM VERMELHO (Moulin Rouge!; EUA – 2001)


Direção: Baz Luhrmann

Seria uma grande injustiça manter este blog funcionando sem ter prestado homenagem a um de meus diretores favoritos. Algumas resenhas depois, senti que chegara a hora de discutir um dos trabalhos do diretor australiano Baz Luhrmann – e dentre eles, optei pelo mais famoso e, provavelmente, o que melhor faz jus a sua estética histriônica pop. Quase uma década após sua investida nos concursos de dança em Vem Dançar Comigo e cinco anos depois de modernizar Romeu + Julieta, Luhrmann se arriscou em um projeto bem audacioso: narrar a história de um jovem poeta inglês que se apaixona por uma cortesã francesa. Entretanto, a sua audácia não está em sua temática, uma vez que, de uma forma ou de outra, o amor é central em todos os seus projetos. A estilística utilizada para o desenvolvimento da narrativa é que chama atenção.

A primeira imagem que surge na tela é a de um palco cujas cortinas se abrem nos apresentando a já tão conhecida fanfarra da FOX. Interessante a forma como a imagem da empresa é intimamente ligada à narrativa e como Luhrmann optou por deixar claro, desde o primeiro instante, que estamos diante de uma história bem teatral. Pois bem! O título do filme, por se referir ao famoso cabaré francês, já poderia nos indicar uma certa teatralidade – afinal não podemos negar que as dançarinas (vulgo prostitutas) exercem papéis em sua profissão que remetem claramente ao teatro; em outras palavras, por que não aceitar o cabaré como uma forma de teatro? – assim sendo, só de ler as cartelas iniciais da película, já temos noção de ambiente e da estética da narrativa. Narrativa que, inclusive, se faz clara logo na primeira fala: “There was a boy” (Havia um menino), ou se preferir: era uma vez (“Once upon a time”). Interessante frisar o foco narrativo de Moulin Rouge!: um narrador conta, em terceira pessoa, a história que é contada pelo personagem principal em primeira pessoa (o boca-a-boca que Walter Benjamin caracterizava nas boas narrações).

A história se passa em Paris na virada dos séculos XIX e XX – um momento historicamente propício para revoluções nos âmbitos político, social e cultural. Christian é um jovem inglês que busca, na boemia francesa, a inspiração para seu imenso desejo de escrever sobre o amor. O fato de nunca ter amado alguém se torna um obstáculo, mas, logo que chega a Paris, acaba conhecendo um grupo de artistas cujas inclinações ideológicas vão ao encontro das dele. A relação do grupo com Chris inicia-se com uma bela junção de The Sound of Music (tema do musical A Noviça Rebelde) e Children of the Revolution (um hino da juventude revolucionária) em um número musical que inclui um símbolo do espírito revolucionário da época – o absinto (bebida que chegava ao teor alcoólico de 80%) – e um símbolo da cultura pop dos dias atuais – a cantora Kylie Minogue no papel da fada verde (apelido carinhoso da bebida). Isso tudo antes de entrarmos no cabaré que dá título ao filme. Aliás, o ritmo frenético é algo que acompanha a estrutura narrativa de Moulin Rouge!.

Ao chegarmos ao ambiente principal, o frenesi continua com a aparição sempre maravilhosa do ator Jim Broadment que dá vida a Harold Zidler, o dono do cabaré. Sua atuação é sensacional e, juntamente com John Leguizamo (que interpreta um dos artistas revolucionários, Toulousse-Lautrec) aparece como a ponta do iceberg de um elenco que realiza um trabalho muito correto. E, se pouco menciono o nome do casal protagonista (Ewan Mcgregor e Nicole Kidman) é porque suas atuações, de certa forma se apagam no conjunto. E já que falamos de aspectos técnicos, falemos sobre o que Moulin Rouge! tem de melhor: cenografia, figurino e maquiagem. As cores saltam aos olhos – um verdadeiro evento visual – conseguindo mesclar o contraste do colorido com o vermelho (cor predominante na película e presente no péssimo subtítulo que o filme recebeu nos cinemas brasileiros). Quanto à montagem, Luhrmann optou por uma estética que remete a uma das revoluções da linguagem audiovisual pop, o videoclipe, através de cortes rápidos (reparem como Zidler apresenta o cabaré olhando diretamente para o espectador como se fosse um ícone da MTV cantando em seu mais novo videoclipe). Além disso, a cultura pop está presente em números musicais pouco convencionais que incluem Nirvana, Queen e Madonna.

Voltando a narrativa. A história de Moulin Rouge! é extremamente romântica (não em sua temática, mas na forma como é desenvolvida, uma vez que remte ao estilo de época conhecido como Romantismo). Temos dois personagens que se apaixonam imediatamente, mas que sofrem com os mais diversos obstáculos para que possam desfrutar do amor que sentem um pelo outro. O olhar que Chris oferece a Satine desde o primeiro momento em que a vê, deixa clara sua paixão à primeira vista, enquanto que a cortesã se sente fisgada pelo amor logo que ouve uma das poesias do rapaz. Como qualquer obra romântica, Luhrmann não abriu mão do maniqueísmo representado pela bipolaridade Chris (o homem honrado, honesto e corajoso) e o duque (maquiavélico e invejoso). O duque surge na história como um investidor que irá financiar a vida artística de Satine em troca – é claro – de seus serviços sexuais. Típico feuilleton. E como de costume o romance envolvendo uma cortesã não é a mais aceita das relações – principalmente pela burguesia conservadora daquela época. Dessa forma, o final desse romance já é previsível (só lembrarmos do ícone do romantismo brasileiro José de Alencar e uma de suas obras mais famosas: Lucíola).

Vencedor de dois prêmios da academia, Moulin Rouge! conseguiu a façanha de ressuscitar um gênero cinematográfico que andava esquecido em Hollywood: o musical. Baz Luhrmann, apesar de nem ter sido indicado ao Oscar, conseguiu realizar seu projeto mais audacioso, permeando – sem ser enfadonho – sua estética camp, não é preciso ser melodramático para se fazer um melodrama (essa é a grande lição que este projeto nos deixa).

domingo, 21 de dezembro de 2008

Réquiem para um sonho (Requiem for a dream - EUA, 2000)



Dir: Darren Aronofsky

Logo no início do primeiro ato deste tenebroso retrato, cujo lançamento, de certa forma, abriu as portas para a produção cinematográfica do século XXI, a protagonista da história diz para si mesmo: isso não está acontecendo. E, se estivesse, estaria bem... tudo vai ficar bem. Solta ao vento, essa fala não parece ter importância, mas ao término de Réquiem para um Sonho ela ganha proporções inimagináveis as quais mostram a ingenuidade que apresentam os personagens ao início – ingenuidade que irá desembocar num processo de autodestruição cujo ápice nos faz mergulhar em um dos momentos mais alucinantes do cinema recente.

Réquiem é uma cerimônia religiosa composta, geralmente, para funerais – o termo, em latim significa repouso. O título do filme se apropria do termo para nos preparar para o que vem a ser um funeral de sonhos. Dividido em atos bem determinados (não me refiro aqui aos atos designados por Syd Field em seu livro Manual do Roteiro, mas aos atos clássicos do teatro), a história começa durante o verão, onde os sonhos brotam nas vidas dos personagens principais. Seja a perspectiva de constituir família, conseguir trabalhar naquilo que gosta ou participar do programa de televisão favorito, Réquiem para um sonho já em seus minutos iniciais deixa claro que aquilo que espera seus personagens nem de longe flerta com um final feliz.

Aronofsky é um diretor relativamente novo, ganhando reconhecimento a partir do final da década passada com sua obra Pi cujo sucesso lhe garantiu a possibilidade de produzir seu projeto seguinte com verba superior. Entretanto, Réquiem para um sonho não é um filme que lança mão de efeitos especiais caríssimos para desenvolver sua linha narrativa, preferindo utilizar-se da montagem para determinar o seu ritmo e, por conseqüência, transmitir os anseios e desesperos de seus personagens. A título de curiosidade, a montagem de Réquiem para um sonho possui mais de dois mil cortes, enquanto que um filme comum tem, em média, entre seiscentos e setecentos.

A história gira em torno de quatro personagens próximos que, de alguma forma, se entregam às drogas tornando-se dependentes químicos. Dentre eles está Sara Goldfarb, mãe de família que sofre com o filho roubando sua televisão freqüentemente para comprar drogas. Ela acaba sendo convidada para participar de seu programa favorito e, sob essa perspectiva, trata de buscar auxilio para emagrecer a fim de que possa entrar em seu vestido favorito (o mesmo que ela usou na formatura do filho anos antes). Através do contato com os remédios de emagrecimento, acompanhamos a degradação dessa senhora, maravilhosamente interpretada por Ellen Burstyn cuja indicação ao Oscar deveria ter sido confirmada em prêmio (infelizmente a Academia preferiu a Erin Brockovich de Julia Roberts). Ironicamente, a pessoa que mais demonstra preocupação com ela é Harry (Jared Leto) – o filho viciado em cocaína e heroína. Harry passa o dia utilizando drogas e buscando lucrar com o tráfico das mesmas com seu amigo, também viciado, Tyrone (Marlon Wayans). Enquanto isso, a namorada do rapaz, Marion (Jennifer Connelly), nutre seu sonho de trabalhar com moda, mas sem deixar de utilizar suas drogas.

O desenvolvimento dessa narrativa vai se tornando cada vez mais tenso, culminando em um terceiro ato alucinante – considerado, por muitos, forte para o estômago. Entretanto a mensagem deixada ao fim da película se torna um registro de uma degradação, cada vez mais, comum em nossa sociedade. A fuga do real ou a busca por remédios demonstram o quão despreparado estamos para lidar com as pressões do dia-a-dia e devo registrar que essa produção conseguiu traduzir de forma cinematográfica tais questões, utilizando corte rápidos, divisão da tela e um trilha sonora cujo tema principal tornou-se tão conceituado que foi utilizado no trailer do segundo filme da trilogia Senhor dos Anéis.

Aronofsky tem tudo para se tornar um diretor conceituado, seus projetos vêm sendo bem recebidos pela crítica e pelo público (aqui me refiro a Pi, Réquiem para um sonho e Fonte da Vida em ordem cronológica). Réquiem para um sonho é um belo exemplar cinematográfico e deve sempre constar em uma lista dos dez melhores filmes dos últimos dez anos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O ÓLEO DE LORENZO (Lorenzo's Oil – EUA, 1992)


Dir: George Miller

O ano de 2008 marcou a morte de um dos protagonistas mais emocionantes da vida real. Lorenzo Odone faleceu aos trinta anos, no dia 30 de maio, mais de vinte anos após o diagnóstico de adrenoleucodistrofia (ALD) e mais de uma década após inspirar o filme O Óleo de Lorenzo, dirigido por George Miller (responsável pela direção do clássico “sessão da tarde” As Bruxas de Eastweek).

A doença de Lorenzo é muito rara, sendo transmitida geneticamente de mãe para filho (assim mesmo no masculino, uma vez que somente meninos a desenvolvem). Ela degenera o sistema nervoso, causando problemas de locomoção, visão, audição, fala – enfim, uma doença gravíssima e cuja cura era desconhecida à época do diagnóstico do rapaz. Sem tratamento conhecido, a única opção era esperar pelo pior – o que não demorava a acontecer, em média cinco anos após a indicação da enfermidade. Insatisfeitos pela falta de informações obtida através dos médicos, os pais de Lorenzo passaram a estudar o caso do filho, chegando a um tratamento o qual é utilizado hoje por milhares de meninos acometidos pelo problema – isso tudo sem nunca terem estudado medicina.

Tal história foi transmitida para as telas de cinema de forma exemplar, principalmente pelas atuações indescritíveis do elenco, encabeçado por Nick Nolte e Susan Sarandon (indicada ao Oscar de melhor atriz por sua interpretação, o filme ainda foi indicado a melhor roteiro original). Atuações dignas dos esforços realizados por Augusto e Michaela Odone cujo empenho entrou em conflito com interesses da comunidade científica – justamente por serem considerados leigos. Hoje, Augusto possui diploma em medicina e ainda pesquisa sobre a doença degenerativa, arrecadando fundos para o Projeto Myelin (ponto onde o filme tem seu desfecho). Michaela veio a falecer de câncer de pulmão em 2000.

Diante de tal situação, impossível não recorrer ao conceito de herói tão discutido ao longo da história. O ato desses pais, no meu ponto de vista, pode ser (leia-se deve ser) considerado um feito heróico – altruísmo além dos clichês usuais – uma vez que ajudou e ajuda jovens em todo mundo. Uma história com um vilão invisível que, tal qual um bicho papão, ataca as crianças em sua inocência. Maniqueísmo de primeira, unindo conceitos de ciência e religião, amor e preconceito, família e a tão discutida presença da morte. Tudo transmitido para a linguagem cinematográfica sem nunca fechar um ciclo, uma vez que se trata de uma proposta para além do filme – vale refletir sobre o fato de que o vilão nunca morrerá e que dois dos heróis já se foram, deixando para trás um legado exemplar o qual servirá de arma para a prosperidade. Nobel para essa família, para esses estudos, para esse projeto. Não pretendo discutir sobre o filme – ele não possui elementos inovadores quanto à linguagem, mas o que se vê na tela emociona pela simplicidade e veracidade dos fatos. Quem não viu precisa ver.
Fica aqui minha homenagem à família Odone, em especial, a Lorenzo cuja morte não foi causada pela doença degenerativa e sim por uma complicação derivada de uma pneumonia. Fica aqui a reflexão: os heróis são como nós e, por isso, todos podemos ser heróis.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Paranoid Park (EUA, 2007)


Direção: Gus Van Sant


O diretor Gus Van Sant é conhecido por seus trabalhos experimentais como Elefante e Últimos Dias. Paranoid Park é um desses experimentos cinematográficos bem sucedidos que utiliza elementos de linguagem pontuais para tratar de um tema recorrente nos trabalhos do diretor – as pressões do dia-a-dia da adolescência.

No caso específico de Paranoid Park, um jovem narra seu desespero perante a morte de um segurança causada por ele e cujo segredo o leva a escrever um diário para dissertar sobre o fato. Essa morte, no contexto fílmico, aparece como um acontecimento aparentemente principal, mas que, na verdade, surge como estopim a partir do qual todas as discussões realmente relevantes da história se revelam – o Macguffin tão utilizado por Hitchcock em suas obras. O importante em sua narrativa é mostrar as várias frentes de pressão que acometem o protagonista Alex, um skatista que juntamente com um amigo passam a freqüentar o parque cujo nome dá título ao filme.

Dessa forma, toda estrutura de linguagem aplicada no filme remete ás confusões psicológicas enfrentadas por Alex nesse momento de sua vida e que se agravam após o incidente com o segurança. A montagem do filme não segue uma linearidade – o que favorece o filme cuja premissa é traçar uma mente conturbada pela situação – indo e vindo no tempo, repetindo cenas sob outros pontos de vista – algo bem recorrente em Elefante. Aliás, a montagem não é a única referência que van Sant faz ao seu filme vencedor da palma de ouro em Cannes; o próprio ambiente escolar, movimentos de câmera, relacionamentos vazios entre personagens e, não poderia deixar de citar, a cena em que Alex vomita no banheiro da escola, que, em muito, lembra as bulímicas do filme de 2003, são fortes indícios de um modo van Sant de contar uma história.

Entretanto o que me chama a atenção em Paranoid Park é o trabalho de som feito na estrutura fílmica. Todo som que ganha destaque em sua narrativa remete aos complexos psíquicos do personagem principal: o som das rodinhas do skate no chão de concreto, o trem passando no momento do acidente com o segurança, o trovão seguido da chuva, a água caindo do chuveiro, as tessituras musicais utilizadas na trilha sonora (acompanhadas por texturas de imagens precisas ao longo do filme). Chama atenção a cena em que Alex, ao sair de casa com o carro de sua mãe, ouve uma música de hip hop – claramente uma utilização diegética da trilha sonora – enquanto dança o que ouve. Através de um corte seco o hip hop se transforme em música clássica e a expressão do protagonista é completamente tensa – neste caso, é impossível afirmar que o uso da música tenha sido feito diegética ou extra-diegeticamente (em breve, disserto sobre o conceito de trilha sonora diegética e trilha sonora extra-diegética). Todos esses elementos sonoros refletem a dúvida que Alex possui em assumir o erro que cometeu por acidente, enquanto nos mergulha na conturbada mente de um rapaz que vive em um ambiente familiar vazio (pais separados que segundo o próprio rapaz não se importam muito com o que ele faz, com quem ele sai e que lugares freqüenta) ou quase vazio (não devo deixar de citar a fala do irmão mais novo de Alex quando ele pede o carro da mãe emprestado: e siga as regras, senhor!).

Esse vácuo familiar poderia ser preenchido pelas outras relações que Alex viria a ter em seu meio social, entretanto o seu namoro com a jovem Jennifer parece ser mais vazio que qualquer outro. Desde o começo do filme fica claro como é um relacionamento cuja existência se dá contra a vontade do rapaz – ele sabe que o único desejo da jovem é perder a virgindade, mas também sabe que realizar esse desejo pode significar uma dor de cabeça muito maior para o futuro e por tal razão, Alex reluta em ultrapassar a barreira do sexo com sua namorada. Não é a toa que a relação sexual se dá num momento de fraqueza do rapaz e se torna muito fria a reação da jovem após o orgasmo (dela... não fica claro se ele alcançou o orgasmo ou sequer sentiu prazer nessa transa) precisamos de mais camisinhas, seguido da fala em off dela comemorando o fato com uma amiga enquanto vemos uma expressão sobrecarregada do protagonista. Esse vazio leva Alex a confessar que buscava amizade no tal paranoid park, um lugar considerado barra pesada onde vários skatistas se reúnem. Uma situação que, cada vez mais, aflige os jovens – a falta de relacionamentos reais, aqueles que realmente completam nossas necessidades mais simples: fugir da solidão, ter alguém com quem se abrir (não é a toa que o companheiro de Alex mais sincero seja o caderno onde ele discorre sua história recente). Nesse momento entra a figura de Macy, a única pessoa que parece realmente se preocupar com Alex – a amiga com quem ele conversa, mas não se abre. Ao longo da narrativa, é ela quem indica a Alex escrever as situações que o afligem em um caderno e o fato do rapaz fazer exatamente o que ela sugere com suas anotações nos faz crer que ele confia na jovem.

Mais uma vez Gus van Sant soube se apropriar da linguagem cinematográfica, em suas inúmeras possibilidades, para traçar uma história sem cair no clichê usual dos filmes sobre adolescente. Estou muito curioso para ver o último trabalho do diretor, Milk, que eu espero poder dissertar em breve por aqui.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Último Corte S.A. (Brasil, 2007)

Direção: Thiago Guimarães

Fiquei muito feliz em saber que meu filme será exibido no Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Sua exibição irá ocorrer no dia 07/08 (5ª feira) na mostra informativa Humor e Comédia 1, a partir das 14h na Caixa Cultural, localizada na avenida Almirante Barroso, 25 Centro (do Rio de Janeiro). Propagandas a parte, gostaria de refletir um pouco sobre as motivações para a produção deste curta.

O Último Corte S.A. foi realizado como parte integrante da avaliação do curso de Direção Audiovisual da faculdade (Rádio e TV da UFRJ). O filme não chega a cinco minutos de duração e acompanha o encontro de um casal de namorados cujo objetivo é ir ao cinema. Entretanto, durante a narrativa, ocorrem erros pontuais de continuidade que tendem a atrapalhar esse encontro. Erros de continuidade, ultimamente, têm chamado a atenção dos espectadores de cinema. Podemos perceber nos últimos anos uma tendência maior a essa forma de diversão. Muitas pessoas vão ao cinema com o objetivo de apontar esses erros e registrá-los em blogs, ou até mesmo, sites especializados no assunto. Muito refleti sobre essa situação e cheguei a seguinte conclusão.

Erros de continuidade, montagem (ou até erros de pesquisa histórica) sempre ocorreram sem gerar grandes alardes por parte do público. A questão é que o conteúdo fílmico – a ação dramática – é rico. Em outras palavras, os filmes quando são ricos em conteúdo, não abrem espaço para os erros de continuidade. Todos sabemos das pontuais aparições de Hitchcock em seus filmes, mas confesso nunca ter me preocupado em encontrá-lo, uma vez que suas narrativas são muito mais interessantes que a diversão de procurá-lo. Laranja Mecânica de Kubrick possui alguns erros de continuidade plantados pelo diretor ao longo da história, mas confesso que nunca as encontrei. A riqueza dos filmes não está unicamente em sua continuidade. Quando somos apresentados a uma boa história, com boa direção, boas atuações, não ficamos presos a erros de continuidade (a não ser que eles sejam gritantes, o que resultaria em demissões em massa antes do lançamento da película).

O que vemos ultimamente são filmes sem conteúdo, fracos em direção, atuação e proposta. É muito mais fácil nos desligar da narrativa para procurarmos erros de continuidade ou erros de relevância histórica (Gladiador é riquíssimo nesse quesito, não é a toa que seja tão fraco em todo o resto). Sabendo disso, minha primeira preocupação, ao criar o roteiro de O Último Corte S.A., foi esvaziá-lo de qualquer conteúdo dramático, tentando criar uma história que não prendesse a atenção do espectador. O objetivo era fazer com que as pessoas percebessem os erros de continuidade e tentassem encontrá-los. Posteriormente criar uma decupagem que favorecesse o ambiente onde ocorre a ação, possibilitando a criação de erros de continuidade pouco perceptíveis e outros gritantes (e confesso que fui feliz nesse ponto, sabendo que existem erros que nunca foram encontrados).

Quanto a produção propriamente dita, devo agradecer aos dois atores que participaram das filmagens, aceitando o desafio de tornar realidade um projeto feito em regime de urgência. O casal se conheceu no dia das filmagens e eles foram super profissionais, sem nenhum tipo de frescura (provavelmente isso é mais comum àqueles que já tem fama). Agradeço também ao nosso câmera que sofreu com a iluminação ambiente, uma vez que o dia estava nublado e as nuvens o tempo todo mudavam a iluminação do apartamento. Não posso esquecer os pedreiros da obra que estava acontecendo no apartamento ao lado e que de forma educada pararam seus afazeres por vinte minutos para a finalização das tomadas realizadas dentro do apartamento (tudo bem que eles disseram que iam parar porque me acharam gente boa – nota: eu estava com a camisa do Flamengo e tenho certeza que a camisa me favoreceu bastante). O curta teve uma boa recepção em sua primeira exibição, realizada no auditório da Escola de Comunicação da UFRJ, diante dos alunos de diversos períodos. A nota final também foi boa.

Meu objetivo é não abrir o segredo, ou seja, nunca revelar quais são os erros de continuidade presentes no filme. Quebraria a diversão e a intenção da obra. Deixo, aqui no blog, a versão youtube e volto a esse tema após a exibição do filme no festival para comentar os resultados da estréia do filme em festivais.

PS: outro filme que contou com a minha participação será exibido no Centro cultural dos correios no dia 05/08 a partir das 19h. Realizei a arte gráfica deste documentário dirigido pelo colega Tomas e que estará na mostra informativa crítica e política. O documentário se chama 12 de outubro. Informações no site do festival: www.fbcu.com.br