domingo, 8 de abril de 2012

O ATENEU (Brasil, 1888)

Autor: Raul Pompéia

Acompanhado pelo subtítulo Crônicas de Saudade, O Ateneu firmou-se como um dos principais exemplares da literatura naturalista brasileira. A obra mais conhecida do escritor Raul D’Ávila Pompéia (1863 – 1895), entretanto, vai muito além do movimento literário ao qual, comumente, é atribuído, apresentando características bem distintas que a colocam como um caso particular e merecedor de especial atenção na historiografia da literatura do Brasil. A começar pelo seu foco narrativo em primeira pessoa que diferencia o romance dos demais títulos do Naturalismo cujas narrativas desenvolviam-se na terceira pessoa – algo que oferecia ao texto um caráter muito mais próximo do academicismo científico tão difundido nessa época, em especial, pelo pensamento Positivista de August Comte. Todavia, ao invés de fugir do tom analista dos textos naturalistas, O Ateneu desenrola-se através de um registro extremamente analítico, pessoal e subjetivo, oferecendo ao romance um forte peso impressionista – caracterizado, principalmente, pelas descrições carregadas de impressões sensoriais dos incidentes narrados.

“O professor interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-me do espírito um pavor estranho. Acovardou-me o terror supremo das exibições, imaginando em roda a ironia má de todos aqueles rostos desconhecidos. Amparei-me à tábua negra, para não cair; fugia-me o solo aos pés, com a noção do momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna!”[1]

            Na história, somos apresentados pelo protagonista Sérgio a sua experiência escolar no internato que dá título à obra. De forma nostálgica, Sérgio rememora seus onze anos, quando “perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase” é matriculado no Ateneu. É nesse microcosmo da sociedade aristocrata imperial brasileira, que o rapaz irá se deparar com o desafio do amadurecimento e suas lembranças – materializadas pelo romance em si – acabam se constituindo como um estudo crítico tal qual aqueles que se apoiaram no projeto naturalista. O ambiente escolar tem papel fundamental para o desenvolvimento da personalidade dos rapazes que ali estudam e é comum observar-se a transformação de caráter pela qual os estudantes passam no decorrer dessa convivência. Dessa forma, se no início, Sérgio encara o Ateneu como “interessante, com as seduções do que é novo”, com o tempo passa a conhecê-lo como “intolerável como um cárcere, morada de desejos e privações.” O determinismo, “visão que apresenta o ser humano como produto do meio em que se encontra, da herança (cultural, social e biológica) recebida e das condições históricas características do momento em que vive”[2] é visível em diversas passagens da narrativa – seja na vingança sanguinária de Franco, visto pelo pai como “bom menino, educado, estudioso” ou na forma como Sérgio reflete a formação do caráter: “parece que às fisionomias do caráter chegamos por tentativas, semelhante a um estatuário que amoldasse a carne no próprio rosto, segundo a plástica de um ideal”. Outra característica tipicamente naturalista testemunhada em O Ateneu é a animalização dos personagens – raciocínio influenciado pelo desenvolvimento dos estudos evolucionistas que encaravam o homem tal qual um animal qualquer e, portanto, selecionável pelos processos naturais; em certo momento o narrador declara: “As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o diretor, segurando-os uns aos outros pelos ombros, seguindo em grupos atropelados como carneiros para a matança”.
            Já que se mencionou a direção da escola, vale ressaltar a importância desta para o romance. Aristarco é a personificação da figura imponente do Ateneu. Narcisista, “único capaz de bem se compreender e de bem se admirar – de ver-se aplaudido em chusmas por alter egos, glorificado por uma multidão de si mesmos”, e rigoroso em seus tratos, o diretor representa o próprio sistema político e social que (desculpem pelo trocadilho) imperava no Brasil àquela época. Pompéia foi um crítico feroz do Império e defensor tanto do ideal republicano como dos abolicionistas e, pensar no período de publicação de O Ateneu é constatar a influência da conjuntura no desenvolvimento da obra bem como refletir sobre o desfecho da narrativa e como ela pode ser entendida como um retrato da decadência da sociedade imperial brasileira.
            Outro elemento que chama a atenção no romance é o tom sexual que ele possui. Os rapazes que ali estão são obrigados a se virar sozinhos tanto com as dificuldades que surgem na exterioridade quanto com as sensações que despertam dentro de si. A sexualidade é manifesta na faixa etária desses estudantes que, carentes do carinho da família são alvos fáceis das brincadeiras maldosas dos outros e acabam encontrando em colegas mais velhos a proteção e completude que tanto necessitam. Chama atenção a relação de Sérgio com quatro personagens. Rebelo, o qual, logo na chegada de Sérgio ao internato o adverte para a realidade que o novo aluno encontraria:

“Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo”

            Sanches, com quem tem sua primeira experiência de proteção “naquele meio hostil e desconhecido” que era a escola: “Sanches foi-se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro dele e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cansaço.” Mais a frente, será com Bento Alves que o protagonista encontrará refúgio emocional:

“Um dia abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.”

Por fim, Egbert, com quem Sérgio guarda “ternuras de irmão mais velho”:

“Vizinhos ao dormitório, eu, deitado, esperava que ele dormisse para vê-lo dormir e acordava mais cedo para vê-lo acordar. Tudo que nos pertencia, era comum. Eu, por mim positivamente adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, destro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração, até a cor da pele e à correção das formas.”

            A homossexualidade, observada como uma realidade comum no Ateneu, apesar de ser praticada por vários alunos – com conhecimento dos colegas –, fugia ao sistema moralista encabeçado por Aristarco e, dessa forma, aqueles que eram descobertos acabavam sofrendo as punições aplicadas pela justiça da moral, a qual preza muito mais a vergonha diante dos olhares alheios que a culpa da reflexão pessoal. Ao descobrir uma carta de encontro enviada por um aluno a outro, o diretor discursa:

“...Esquecem pais e irmãos o futuro que os espera, e a vigilância inelutável de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo das mães... caiu-lhes a vergonha como  um esmalte postiço... Deformada a fisionomia, abatida a dignidade, agravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito à individualidade humana e encontram colegas assaz perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...”

            Todavia, as personagens femininas, também possuem sua importância no desenvolvimento da sexualidade dos personagens. O tom sedutor com o qual Sérgio refere-se a D. Ângela é tão forte que o rapaz é capaz de perdoar um crime hediondo cometido na escola em nome dela. Ele descreve Ângela como uma mulher de:

“cerca de vinte anos; parecia mais velha pelo desenvolvimento das proporções. Grande, carnuda, sanguínea e fogosa, era um desses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados expressamente para pessoas da multidão – protestos revolucionários contra o monopólio de tálamo.”

            Dona Ema ganha, por sua vez, os traços da maternidade perdida no internato e sua relação com Sérgio ganha tons freudianos, em substituição à mãe biológica:

“Desde essa ocasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! Eu não amara nunca assim a minha mãe. Ela andava agora em viagem por países remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nela...”

            A linguagem aplicada em O Ateneu, ao lançar mão do narrador-personagem, realiza uma mescla da análise psicológica do personagem, comum a literatura realista, com a objetividade posta em prática pelos escritores naturalistas. Chama atenção também que, em meio a tantas situações e questionamentos, o protagonista procure refúgio no céu, nos astros – é recorrente o retorno de Sérgio para o espaço reservado ao estudo de astronomia da escola – característica que, somada ao impressionismo já citado, antecipa um pouco do projeto simbolista que começava a emergir no cenário artístico. Dessa forma, Raul Pompéia – que teria se inspirado em suas próprias experiências de aluno interno – concebeu uma obra rica em discussão tanto sócio-política como artística, tendo como cerne de análise a saudade presente em seu subtítulo. “Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas.”


[1] Todas as citações feitas da obra de Raul Pompéia foram realizadas a partir da edição publicada pela Martin Claret: São Paulo, 2002.
[2] ABAURRE, Maria Luiza M. Literatura Brasileira: tempos, leitores e leituras, volume único. São Paulo: Moderna, 2005.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O ARTISTA (The Artist – EUA e França, 2011)

Direção: Michel Hazanavicius
            O cinema vive um momento muito curioso. A popularização do 3D nas salas de exibição em todo mundo trás consigo os questionamentos sobre até que ponto essa tecnologia irá crescer e se, no futuro, será capaz de substituir as salas tradicionais. Ora, falar em tradição em uma história de cento e dezesseis anos (serão dezessete em dezembro) é algo complicado, tendo em vista que o cinema já passou por diversas condições como a que testemunhamos e, sempre, foi capaz de se reinventar e manter sua chama acesa. No passado, a sétima arte já teve de conviver com a possibilidade de contar histórias – para além do simples registro de imagens em movimento – sofrendo o preconceito de outras formas de arte como o teatro e, além disso, foi capaz de sobreviver à crise da televisão e do videocassete. Entretanto, de todas as situações adversas – melhor chamar de situações geradoras de questionamentos inflamáveis – aquela que emerge na lembrança de todo cinéfilo é a entrada do som e da fala no cinema e é a essa fase da historiografia cinematográfica que o filme O Artista, de Michel Hazanavicius, nos leva.
            A década de vinte já vivia a experiência dos grandes estúdios de Hollywood(land), da linguagem narrativa clássica popularizada em meados da década anterior pelo controverso Nascimento de uma Nação e sob a imagem do star system, o qual transformava atores e atrizes em ícones da cultura – símbolos da nação. Nesse contexto, surge a figura de George Valentin (um misto de Errol Flynn e Douglas Fairbanks), unânime junto ao público, distribuindo sorrisos para todos os lados, exercendo seu papel de ícone. É no auge do seu sucesso que uma série de acontecimentos irá transformá-lo – a começar pelo seu encontro com a postulante a atriz Peppy Miller. Esse encontro – quase que casual – torna-se a grande chance de Miller que, ao ser fotografada dando um beijo em Valentin, encontra na capa de um jornal a possibilidade de se agarrar em seu sonho, cuja realização se dá gradativamente ao ganhar papéis, cada vez, mais notáveis. Em contrapartida, Valentin convive com dificuldades junto a sua esposa e com os novos projetos do estúdio, o qual pretende abrir espaço para as produções sonoras. A partir desse momento, o espectador se vê diante de uma inversão de papéis, observando a ascensão de Peppy e o declínio de George – cujo preconceito em relação ao som no cinema, bem como o orgulho exacerbado, reflete-se, assim como ocorreu com vários atores daquela época, na perda de papéis importantes; interessante notar essa inversão em uma seqüência em que os dois atores se encontram em uma escada, onde, notoriamente, percebemos Miller dirigindo-se para cima e Valentin para baixo (plano muito bem composto por Hazanavicius).
            E já que mencionei o nome de Hazanavicius, é importante parabenizar o trabalho do diretor que ousou (porque não dizer) em conceber um filme sobre um dos períodos mais interessantes do cinema (muitas vezes levado às telas, vide Cantando na chuva e Crepúsculo dos Deuses), mas lançando mão de uma produção muda – não há falas em O Artista. Curioso notar que tal escolha favoreça um dos elementos que mais saltam aos olhos (ou aos ouvidos) nessa produção que é o som – a trilha sonora do filme é muito bem concebida. Ao assistir a O Artista temos a sensação de estarmos diante de uma verdadeira obra cinematográfica da década de vinte, tamanha a qualidade da reconstituição de época feita pela direção de arte e pelo figurino. Muito além de um filme sobre o cinema mudo, O Artista de renovação, de saber lidar com o novo, adaptar-se à novidade a fim de sobreviver – algo que, como já comentei, o cinema fez muito ao longo dos anos – e, se a história narrada não tem grandes pretensões do ponto de vista da linguagem (o filme segue a cartilha de D. W. Griffith), ainda sim é possível encontrar elementos muito interessantes como determinado som ofegante no ato final do filme e o melhor “bang” catártico que lembro ter visto nos últimos anos – mas isso só dá para discutir com quem assistiu ao filme.   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We need to talk about Kevin – EUA e Reino Unido, 2011)


Direção: Lynne Ramsay

            Selecionado para a mostra principal do Festival de Cannes de 2011 e exibido em sessões disputadíssimas durante o último Festival do Rio, Precisamos falar sobre o Kevin inicia sua narrativa apresentando-nos a uma Tilda Swinton transtornada – quase surtada – entregue a remédios controlados, com dificuldades para relacionar-se com os outros na rua, para arranjar emprego e vivendo em uma casa vítima de atos de vandalismo, bem como o carro que a transporta de um lado para o outro. A personagem em questão é Eva, uma mulher que sofre as conseqüências de ser mãe do executor de um massacre escolar. A película gira em torno dessa mulher e de sua relação, rememorada dois anos depois, com seu filho – aquele que dá título à história.
            Mãe de primeira viagem e, porque não pensar, diante de uma gravidez indesejada, Eva acaba por transformar a experiência da maternidade em um grande tormento e o fato de seu nome fazer referência à personagem bíblica não é gratuita – reparem na dificuldade que é o parto do pequeno Kevin. Dessa forma, a própria relação entre mãe e filho fica pautada pela frieza e, em certos momentos, pela disputa de forças – ponto em que o pai da criança, Franklin, surge para pender a balança em favor de Kevin. Sabendo disso, a criança não tem medo em lançar mão de todo um caráter calculista e possessivo, a fim de conquistar tudo que almeja. É nesse ponto que algumas ações se tornam pouco críveis, uma vez que a criança torna-se a personificação do mau, controlando suas ações no intuito de atingir Eva em sua maior fraqueza, que é a falta de controle que tem sobre ele. A maldade do rapaz parece intrínseca, como uma essência anterior a ele – em certo momento, Kevin (já mais velho), em resposta a afirmação da mãe de que ele é uma pessoa fria, questiona Eva sobre quem ele deve ter puxado, em clara tentativa de atingir a mãe.
            Inclusive, as ações ganham outra conotação quando Ezra Miller assume o papel de Kevin, às vésperas de completar dezesseis anos. Nesse momento, a personalidade do rapaz, já sustentada em uma história – mesmo que ela, no filme, se limite as relações familiares –, tem a capacidade de justificar suas ações – o ciúme que tem da irmã caçula e a simpatia com que trata o pai, sempre recompensada com algo do seu interesse. A relação entre ele e Eva ganha um sentido muito mais freudiano e, aqui, emerge a reflexão sobre as motivações que levam Kevin a planejar o massacre que realiza – afinal, a maior vítima acaba sendo a própria mãe, a qual sofre, além da culpa pelo ato criminoso do filho, com o peso da opinião pública, em especial dos pais que perderam seus filhos no episódio (interessante notar que a única pessoa que a trate bem seja um sobrevivente, ou seja, alguém que viveu a experiência com a própria pele).
            Precisamos falar sobre o Kevin, no meu ponto de vista, seria um filme genial – em função da última cena, cujo propósito é justamente lançar sobre o espectador o interesse em conhecer melhor o Kevin daquele momento diante de Eva – mas, infelizmente, a construção desse personagem, ao longo da narrativa, dificulta um pouco esse processo, fazendo com que o filme seja, apenas, muito bom.