sexta-feira, 25 de abril de 2014

SANGUE NEGRO (There will be blood – EUA, 2007)

Direção: Paul Thomas Anderson
            A genialidade de Paul Thomas Anderson nesta obra começa pelo título (original). There Will be blood é muito mais que um título ilustrativo; é um aviso: haverá sangue – e a veracidade deste aviso toma forma com o desenrolar da narrativa. Largando o intimismo que perpassou sua obra cinematográfica em filmes como Magnólia e Boogie Nights, Anderson adentra o território da narrativa épica, fazendo-o de forma eficaz, resgatando de forma competente um estilo outrora explorado, mas há muito esquecido (não falo aqui das narrativas ao estilo Senhor dos Anéis, mas dos épicos norte-americanos ao estilo Assim caminha a humanidade). Livremente inspirado no livro Oil! de Upton Sinclair, Sangue Negro acompanha a ascensão de Daniel Plainview, desde sua origem na exploração de minério até seu enriquecimento com o petróleo e, se ambas as riquezas surgem do subsolo para atender à ganância deste complexo protagonista, é interessante notar que Anderson – e mais especificamente a soberba atuação de Daniel Day Lewis – explora justamente as mais internas camadas da alma de Plainview,seja para analisá-la ou para constatar sua ausência, dependendo da interpretação que se prefira seguir; repare como Plainview constantemente surge sujo em cena: terra e petróleo em referência ao teor de seu caráter.
            Acompanhado por seu “filho”, H.W. Plainview, cujo papel é trazer uma atmosfera familiar e humanista a seus negócios (e o fato dessa relação ser totalmente pautada por interesse fica evidente pela reação de Daniel quando o rapaz se torna um problema para os negócios e isso acontece mais de uma vez ao longo do filme), Daniel chega a uma área promissora para a exploração onde percebe a chance de enriquecer ainda mais à custa da ingenuidade da população local. A questão é que Plainview se depara com um jovem pastor, cuja capacidade oratória e o gosto pelo espetáculo se equiparam a suas abordagens, o que o torna um claro oponente na busca por seus interesses. Vale ressaltar que recai sobre Paul Dano a responsabilidade de dar vida a Eli Sunday (Sim! Domingo é o dia santo!) e é de suma importância para a eficácia da narrativa que ele não seja engolido em cena por Daniel Day Lewis, o que desmontaria todo o embate e toda a proposta de Sangue Negro.
            Paul Thomas Anderson, um dos diretores mais eficientes de sua geração, vai muito além da história do explorador de petróleo, demonstrando como a mentalidade norte-americana foi produzida pela junção ganância – religião em seu estado mais acessível: o espetáculo. Não são raras as vezes que percebemos Eli ou Daniel lançando mão das mais variadas estratégias para atrair a atenção de seu público: figurino, cenografia, impostação vocal entre outras. Nesse ponto torna-se impossível não relacionar o protagonista de Sangue Negro com outro personagem icônico da historiografia do cinema: Charles Foster Kane. Ambos os personagens são ricos e buscam no dinheiro o escape para as ausências afetivas que permeiam suas vidas: se o personagem título de Cidadão Kane acaba por buscar refúgio no Rosebud balbuciado em seu leito de morte, Daniel Plainview ainda busca graus de parentesco em que possa encontrar afeto, fato que gera certa frustração, para não dizer ódio (observe a reação de Daniel ao descobrir determinada farsa envolvendo um parente próximo).

Sangue Negro é um filme difícil de esgotar. São sequências e mais sequências com alto teor artístico e que muito acrescentam à narrativa – sem falar da eficiente trilha sonora que nos arrasta para os conflitos de Plainview e da belíssima fotografia vencedora do Oscar. Certamente um filme que precisa ser visto e revisto nos mínimos detalhes e que fatalmente causará uma impressão no espectador – um incômodo digno de discussão, algo mais que necessário para se considerar uma obra eficiente: There Will be blood é.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

UM SORRISO DOMINICAL

            Lembro-me de minha família. Dos domingos sentados à mesa. Do almoço servido quentinho em uma esquina tijucana. Entretanto...
            Não eram os almoços de domingo os verdadeiros laços. Os almoços de domingo tinham um quê de burocrático – algo de tradicional cuja realização pairava entre o obrigatório e o racional. Os sorrisos dominicais limitavam-se ao bater ponto no domingo de folga.
            Bom mesmo eram os domingos sob a maresia da Região dos Lagos. Aqueles domingos eram incessantes, sem intervalos semanais. Acordar pela manhã ao som da cozinha ganhando vida. Flanar pelos cantos da casa sentindo os sorrisos cheios de liberdade que desembocavam nas tardes na praia, culminando em um pôr-do-sol inviolável. As viagens à Região dos Lagos eram os verdadeiros laços.
            Hoje, ainda inebriado pelas lembranças, quando acordo em uma esquina de Copacabana, finjo ser o som da cozinha as conversas de outrora. Fecho os olhos e imagino pelo menos um sorriso dominical que sirva de elixir para mais um dia.
Meu sorriso dominical tornou-se um laço maquiado com o pó da tradição e a sombra da burocracia.
Mario Chris

Rio de Janeiro, 09/04/2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

OSCAR 2014 – parte 2

Terminada a 86ª Cerimônia da Academia, o saldo da noite respeitou o que era esperado, dividindo os prêmios entre os grandes favoritos da noite 12 anos de escravidão e Gravidade – sendo que este ficou com 7 prêmios, em sua maioria técnicos, enquanto que o filme de McQueen recebeu 3 prêmios de primeiro escalão, incluindo o de Melhor Filme. Com relação as minhas expectativas, elas também foram atendidas, pois apesar de meu favorito Ela ter saído apenas com o prêmio de Melhor Roteiro Original, os filmes supracitados eram, respectivamente, meus segundo e terceiro votos. Só para relembrar o que comentei no meu post anterior, meus votos na categoria melhor filme seriam: Ela, 12 anos de escravidão, Gravidade, O lobo de Wall Street, Clube de Compras Dallas, Nebraska, Trapaça, Capitão Phillips e Philomena. Interessante notar que dos nove finalistas na categoria principal, cinco ficaram sem nenhum prêmio, o que não deixa de ser curioso, já que a academia, há cinco anos, aumentou o número de finalistas a fim de poder agraciar filmes que não teriam chances de indicação com o limite de cinco finalistas. Fica a sensação de que, apesar de conseguirem a visibilidade de se tornarem um Academy Award Nominee, esses filmes ainda não têm força para se tornarem Academy Award Winner – e de fato não estamos falando de filmes ruins, se lembrarmos que um deles, Trapaça, era dado como favorito, por ser um dos recordistas de indicação (acabou sendo um dos maiores derrotados de todos os tempos). Completam a lista de derrotados: O lobo de Wall Street, Nebraska, Capitão Phillips e Philomena.
Dentre os vencedores, cada um ficou com os prêmios que já aguardavam: Clube de Compras Dallas ganhou as categorias de melhor maquiagem e penteado, melhor ator coadjuvante e melhor ator; Ela recebeu o prêmio de melhor roteiro original, Gravidade (campeão em número de prêmios) subiu ao palco para receber melhor edição de som, melhor som, efeitos visuais, trilha sonora, fotografia, edição e direção, já 12 anos de escravidão recebeu melhor roteiro adaptado, atriz coadjuvante e melhor filme.
Apesar de não ter acompanhado os lobbys em torno dos indicados, logo no tapete vermelho dava para perceber que Lupita Nyong’o ganhou os holofotes e, de fato, ela estava belíssima em seu vestido Prada – ali passei a perceber que o prêmio de melhor atriz coadjuvante poderia tropeçar (não resisto à piada) das mãos de Jennifer Lawrence como de fato ocorreu. Justiça foi feita, o trabalho de Lupita é fantástico e ela estrela a cena mais comovente do filme de McQueen. Quanto aos lobbys negativos, aquele feito contra a atriz Cate Blanchett não surtiu efeito – relacioná-la ao nome de Woody Allen, querendo desmerecê-la por estar “envolvida” profissionalmente com um homem acusado de pedofilia, aumenta ainda mais o absurdo que é essa acusação descabida de Mia Farrow. Assim, Blanchett recebeu seu segundo merecidíssimo Oscar, desta vez de Melhor Atriz pelo também ótimo Blue Jasmine. Já o outro lobby negativo funcionou – O lobo de Wall Street, que não agradou parte da crítica por parecer fazer justiça a um estilo de vida reprovável, um absurdo por demonstrar que tais críticos não sabem o significado de ironia, acabou saindo de mãos abanando – enfim, já tinha dissertado sobre como seria difícil o filme de Scorsese ganhar algum prêmio (tamanha era a qualidade dos principais indicados).
Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, a Itália saiu da fila de quinze anos com uma obra muito poética de Paolo Sorrentino. Há muito tempo que não vejo uma seleção de filmes estrangeiros tão boa – faltou assistir ao indicado palestino. Todavia qualquer um dos outros que ganhasse faria jus ao prêmio. A grande beleza é um filme de qualidade impecável como há muito não vejo, cinema italiano em estado puro – sem faltar referências ao mestre Felinni. Interessante que, além da referência felliniana no filme italiano, tivemos a referência a Chris Marker no filme do Cambodja. Vale a pena conferir Alabama Monroe, A caça e A imagem que falta.
Os dois prêmios mais importantes: direção e filme acabou sendo dividido, conforme esperado, pelos filmes Gravidade e 12 anos de escravidão. O prêmio de melhor direção coroou o trabalho de Alfonso Cuarón, que, apesar de alternar de gênero, manteve sua pegada e sua qualidade em nos agraciar com momentos de tensão e em estudos de personagem bem elaborados – desde E sua mãe também, Cuarón flerta com a Academia, sem nunca ter recebido um prêmio (este ano saiu com dois, já que também foi responsável pela edição do filme). Já Steve McQueen subiu ao palco para receber o prêmio mais cobiçado da noite. 12 anos de escravidão é um filme com pegada crítica que demonstra ser bem atual, não apenas porque ainda testemunhamos cenas de escravidão propriamente dita, mas pelo fato de que muitas vezes, apesar de sermos livres, sentimo-nos presos a um sistema que nos escraviza. Enfim, o mais importante é o fato de que 12 anos não trabalha com os típicos estereótipos de filmes de escravidão – não temos o negro caricato, engraçado como costumamos observar, por exemplo, nas novelas globais, ou o americano herói que, travestido de messias, salva todo mundo (reparem que o personagem de Brad Pitt é canadense). Filmes sobre esse tema não podem – não devem – abrir espaço para escape emocional e McQueen conseguiu fazer isso e, de fato, incomoda perceber o que nós, brancos, causamos com nossos semelhantes. Não à toa que livro e filme passaram a ser obrigatórios nas escolas públicas norte-americanas.
De fato,

Sobre a cerimônia, considerei interessante o fato de Ellen de Generis ter quebrado a formalidade da festa com seus selfies e com uma rodada de pizza aos convidados. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

OSCAR 2014 – PARTE 1

            Concluído o projeto de assistir a todos os filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme, passo a divulgar minhas preferências para a noite de 02 de março, domingo próximo. Ainda pretendo assistir a mais três filmes, concluindo meu projeto de assistir também aos indicados na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (até o momento assisti aos concorrentes belga e dinamarquês). A princípio observei algumas injustiças nas categorias de atuação – sentindo falta de alguns nomes que, considero, seriam mais interessantes de figurar na lista que aqueles que, de fato, constam.

Melhor Ator – considero que, este ano, as atuações masculinas se destacaram mais que as femininas e, dessa forma, entendo o quão difícil deve ter sido definir os cinco finalistas. Todavia tiraria a indicação de Christian Bale (Trapaça) – sem que isso signifique menosprezar seu trabalho – e no lugar ficaria tentado entre Robert Redford (Até o fim), Joaquin Phoenix (Ela) e Mads Mikkelsen (A caça).

Melhor Atriz – por mais que eu possa ser apedrejado por tal opinião, sacaria Meryl Streep (Álbum de Família, particularmente um dos filmes mais fracos dentre todos os indicados) e colocaria Greta Gerwig (Frances Ha, embora ainda com dúvidas se ela se aplicaria a uma indicação, já que o filme é de 2012, todavia, ao que parece, foi lançado comercialmente apenas em 2013).

Melhor Ator Coadjuvante – adoro a cena do telefone de O lobo de Wall Street, mas acho que ela não é suficiente para a indicação de Jonah Hill a qual poderia muito bem ter ido para Daniel Brühl (Rush – no limite da emoção).

Melhor Atriz Coadjuvante – sacaria Julia Roberts (Álbum de família – eu realmente achei esse filme um novelão) e, em seu lugar, arriscaria Amy Adams (Ela). Muitos falam do belíssimo trabalho de Scarlett Johansson (Ela) e concordo que sua atuação mereceria ser lembrada (afinal muito do filme se deve a, desculpe pelo trocadilho, Ela), entretanto pensaria em uma categoria inexistente que atentasse especialmente para o uso de voz (algo como uma categoria de melhor dublagem).

Quanto aos filmes indicados à categoria principal, meus votos seriam:



1 – ELA (Her) – acredito que o filme ganhe na categoria Melhor Roteiro Original (apesar do lobby contra em função de uma suposta acusação de plágio). Todavia Jonze conseguiu traçar um futuro muito plausível se lembrarmos das formas como as relações se constroem nos dias de hoje.

2 – 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (12 years a slave) – é favorito e, sim, um filme necessário, já que apresenta um lado obscuro da história da humanidade de forma fiel e, vale lembrar, que a academia ainda tem uma dívida com filmes sobre escravidão.

3 – GRAVIDADE (Gravity) – Alfonso Cuarón conseguiu realizar um filme que, apesar de se ambientar no infinito, caracteriza-se como claustrofóbico e como um belo tratado sobre a solidão. Provavelmente ganhará na categoria de Direção.

4 – O LOBO DE WALL STREET (The Wolf of Wall Street) – Mais um bom produto da parceria Scorsese-DiCaprio que, em tom de ironia, tece uma crítica a uma sociedade movida pela ganância. É o típico caso do filme que pode sair sem nenhum prêmio ou surpreender e vencer todas as categorias a que está indicado.

5 – CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas buyers club) – Boa exposição de fatos que não conhecia sobre a política de saúde pública dos EUA nos anos 80. Filme necessário para relembrar o quanto os anos Reagan foram pautados pela política do preconceito. Muito provavelmente sairá com os prêmios de Melhor Ator (Matthew McConaughey) e Melhor Ator Coadjuvante (Jared Leto).

6 – NEBRASKA (Nebraska) – Adorei o fato de o filme servir de referência para um projeto pessoal. Fora isso, as atuações de Bruce Dern e de June Squibb são um brinde. Pode vencer na categoria de Melhor Fotografia.

7 – TRAPAÇA (American Hustle) – Sensação de já ter assistido a esse filme antes. Também achei previsível, mas chamo atenção para Jennifer Lawrence (melhor que em O lado bom da vida) que deve sair com o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante.

8 – CAPITÃO PHILLIPS (Captain Phillips) – Paul Greengrass é excelente para criar clima de tensão e não me desapontaria se ganhasse uma nova indicação ao prêmio de melhor diretor. Acredito que o filme tem chances na categoria de Melhor Edição.



9 – PHILOMENA (Philomena) – O filme fofo dentre os indicados. Vale a atuação de Judi Dench que, para mim, é uma diva. Pode ganhar na categoria de Melhor Trilha Sonora (até porque creio já estar na hora de Alexander Desplat ganhar o reconhecimento da Academia). 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ALABAMA MONROE (The broken circle breakdown – Bélgica, 2013)

Direção: Felix Van Groeningen
            Alabama Monroe é um filme belga sobre luto ao som de bluegrass. É curioso partir dessa premissa, mas ao final do filme tal afirmação faz sentido e o espectador tem consciência de ter passado por uma experiência dolorosa cujo desenrolar poderia inclinar-se para o clichê. Poderia. Felix Van Groeningen elabora uma obra audiovisual poderosa que garantiu à Bélgica sua sétima indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
            Segundo nossa amiga Wikipédia (é certo referir-se no feminino?) o luto “é um conjunto de reações a uma perda significativa” e é justamente através dessas reações que somos convidados a conhecer as particularidades de Didier e Elise – ele, um cantor de bluegrass e ela uma tatuadora que carrega em seu corpo um pouco de suas memórias amorosas. Esse casal apaixonado é posto à prova quando a doença de sua única filha desenrola-se rumo ao inevitável (embora o inevitável aqui deva ser encarado como algo exageradamente precoce, tendo em vista que a menina conta apenas seis anos de vida) acaba oferecendo aos protagonistas um novo sentido para a frase “até que a morte os separe”.
            Assim como nos filmes Anticristo e Reencontrando a felicidade, Alabama Monroe explora as particularidades de cada personagem e a forma como elas influenciam a reação deles diante do luto e a escolha de Van Groeningen é acertada, pois nos apresenta a essas particularidades em doses homeopáticas. Dessa forma a edição nos leva e trás do passado para o presente várias vezes, sem preocupar-se com ordem cronológica em uma estratégia que serve, muitas vezes, para preservar o espectador da dura realidade que se apresenta.
            Também é importante notar que são as distinções de cada personagem que geram a principal discussão do filme, a qual envolve a questão da fé. Enquanto Elise encara a morte como uma forma de redenção divina a qual possibilita as mais inúmeras metáforas como a das estrelas, através da qual uma pessoa se torna um corpo celeste no pós-morte, Didier possui uma visão mais direta sobre o assunto, recusando-se a acreditar em algo que vá além do fato de que após a morte, a pessoa está morta. São essas características que, fornecidas ao espectador pouco a pouco, fornecem verossimilhança às atitudes do casal no que me pareceu ser o grande acerto de Van Groeningen.
            Outro acerto de Alabama Monroe é o uso do bluegrass que, em nenhum momento, parece interferir de forma prejudicial à narrativa, demonstrando a importância que a música tem para o casal – repare na beleza do primeiro plano do filme e em como ele é resgatado no meio da narrativa, revelando-se ser muito mais importante que parece.

            Alabama Monroe é realmente um filme sobre luto ao som de bluegrass, mas o luto deve ser encarado, lembrando que a morte não é a única forma de se ter perdas significativas – o que faz com que o filme tenha uma força ainda maior. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

FRANCES HA (Frances Ha – EUA, 2012)

Direção: Noah Baumbach
            Foi a partir da resenha de um jornal de grande circulação do Rio de Janeiro (pois é, só existe um) que me aproximei deste filme. A crítica o indicava como o “filme fofo” de 2013 e assistir a filmes fofos sempre, ou quase sempre, é uma experiência agradável – ainda mais se o diretor em questão ser o mesmo responsável por uma das obras mais interessantes da década passada (alo de A lula e a baleia). Assim sendo, assisti a este Frances Ha sem conhecer muito a história, limitando-me a saber que era filmado em preto e branco e ambientado em Nova Iorque nos conturbados tempos de hoje.
            Frances é uma jovem de vinte e sete anos que, diante das conturbadas relações que se estabelecem atualmente, parece ter dificuldades em assumir a vida adulta e suas responsabilidades. Roteirizado por Baumbach juntamente com Greta Gerwig (que também dá vida a personagem título), France Ha acompanha as transformações que ocorrem na vida da protagonista quando sua melhor amiga, com quem divide um apartamento, resolve se juntar com o namorado, obrigando a jovem a repensar sua vida. O fato se torna mais chocante para Frances, pois esteve perto de passar pela mesma situação, embora, no seu caso, tenha preferido manter-se na zona de conforto representada pela presença da amiga com a qual realiza suas brincadeiras e projeta um futuro idealizado.
            Diante disso, acompanhamos as várias mudanças de apartamento pelas quais Frances passa, conhecendo novos personagens, cada um com seus projetos e suas lutas particulares para realizá-los. A questão é que Frances parece assumir uma postura passiva/ingênua em relação aos fatos e, assim, acaba perante a difícil decisão entre seu sonho de se tornar uma grande bailarina e a necessidade de ganhar dinheiro para o seu sustento.
            Através de diálogos bem elaborados e ações bem estruturadas (tanto nos momentos engraçados quanto nos momentos sérios), Frances Ha em momento algum parece inverossímil, assumindo uma postura diegética que poderia ser vivenciada por qualquer um e sua fotografia em preto e branco, somado a sua trilha sonora recheada de clássicos que remetem aos anos 80 oferecem uma experiência muito agradável – uma vez que todos os elementos ajudam a humanizar Frances sem torná-la uma personagem trágica ou excessivamente cômica.
            Sem dúvida alguma um “filme fofo” que vai muito além de ser simplesmente fofo. 

A CAÇA (Jagten – Dinamarca, 2012)

Direção: Thomas Vinterberg
           
Thomas Vinterberg é um diretor que, juntamente com outro cineasta dinamarquês – Lars Von Trier, idealizou um movimento cujo objetivo era estabelecer regras para a realização cinematográfica no intuito de resgatar a sétima arte de seu afogamento comercial. Esse movimento recebeu o nome de Dogma 95 e o primeiro filme a seguir religiosamente o chamado “voto de castidade” – nome dado ao conjunto de regras que os cineastas devem respeitar para receberem o Certificado Dogma 95 – foi uma obra de Vinterberg intitulada Festa de Família. Naquela ocasião, nos idos de 1998, o diretor abordou um assunto bem polêmico: a pedofilia. Quatorze anos depois – tendo o movimento Dogma 95 sofrido algumas adaptações naturais – Vinterberg retorna a essa temática no ótimo A Caça, filme que garantiu À Dinamarca sua décima indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
            Ambientado em uma comunidade dinamarquesa, somos apresentados a Lucas, um professor de jardim de infância, o qual – carinhoso com seus alunos – é respeitado por todos a sua volta, seja no trabalho ou nas questões pessoais, já que está envolvido em um difícil processo de separação, o que inclui seu desejo de estar próximo do filho.
            Todo esse respeito vem por água abaixo da noite para o dia quando uma aluna, motivada por sua imaginação inventiva e um ato impensado de um amigo de seu irmão adolescente, confunde seus sentimentos e acaba acusando seu professor de tê-la abusado sexualmente. Baseado, justamente, no fato de as crianças serem “incapazes de mentir”, as acusações sobre Lucas vão tomando maiores proporções, o que faz com que praticamente toda a comunidade se volte contra o professor, sendo que todas as alegações baseiam-se na torpe imaginação dos adultos.
            Com uma fotografia belissimamente estruturada, A Caça usa sua iluminação para desenhar as transformações pelas quais passa o protagonista, que, submerso nessa atmosfera, busca manter sua dignidade. Neste ponto é importante ressaltar a fantástica atuação de Mads Mikkelsen (Palma de Ouro em Cannes), cuja concepção de personagem é brilhante nessa busca incessante pela verdade – em alguns momentos Lucas lembra Joseph K, personagem kafkaniano que não tem noção do teor das acusações que caem sobre ele – e pela manutenção de sua sanidade física e mental. Dessa forma, se ao início da película Lucas aparece sempre sorridente, brincando com as crianças ou com seus amigos, no segundo ato o personagem já se apresenta de uma forma bem mais introspectiva, como que refletindo sobre a situação que o acometeu e calmo, na tentativa de manter sua postura junto ao filho adolescente – que diante das acusações que o pai sofre, desespera-se, culminando, no terceiro ato, com atitudes mais catárticas, fruto da forma como os que o rodeiam escolhem para atacá-lo e aos seres que ama. Todavia é no desfecho da narrativa que conhecemos Lucas como um homem de temperamento bem particular e suas atitudes com relação aos que outrora o atacavam demonstra isso - comportamento que muito me lembrou de outro filme indicado ao Oscar deste ano, Philomena.

            A caça é uma obra visceral sobre como uma simples inverdade pode jogar a vida de um indivíduo num vertiginoso abismo de onde é muito, mas muito difícil de sair, mesmo que as circunstâncias possam estar a seu favor.