domingo, 8 de abril de 2012

O ATENEU (Brasil, 1888)

Autor: Raul Pompéia

Acompanhado pelo subtítulo Crônicas de Saudade, O Ateneu firmou-se como um dos principais exemplares da literatura naturalista brasileira. A obra mais conhecida do escritor Raul D’Ávila Pompéia (1863 – 1895), entretanto, vai muito além do movimento literário ao qual, comumente, é atribuído, apresentando características bem distintas que a colocam como um caso particular e merecedor de especial atenção na historiografia da literatura do Brasil. A começar pelo seu foco narrativo em primeira pessoa que diferencia o romance dos demais títulos do Naturalismo cujas narrativas desenvolviam-se na terceira pessoa – algo que oferecia ao texto um caráter muito mais próximo do academicismo científico tão difundido nessa época, em especial, pelo pensamento Positivista de August Comte. Todavia, ao invés de fugir do tom analista dos textos naturalistas, O Ateneu desenrola-se através de um registro extremamente analítico, pessoal e subjetivo, oferecendo ao romance um forte peso impressionista – caracterizado, principalmente, pelas descrições carregadas de impressões sensoriais dos incidentes narrados.

“O professor interrogou-me; não sei se respondi. Apossou-me do espírito um pavor estranho. Acovardou-me o terror supremo das exibições, imaginando em roda a ironia má de todos aqueles rostos desconhecidos. Amparei-me à tábua negra, para não cair; fugia-me o solo aos pés, com a noção do momento; envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna!”[1]

            Na história, somos apresentados pelo protagonista Sérgio a sua experiência escolar no internato que dá título à obra. De forma nostálgica, Sérgio rememora seus onze anos, quando “perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase” é matriculado no Ateneu. É nesse microcosmo da sociedade aristocrata imperial brasileira, que o rapaz irá se deparar com o desafio do amadurecimento e suas lembranças – materializadas pelo romance em si – acabam se constituindo como um estudo crítico tal qual aqueles que se apoiaram no projeto naturalista. O ambiente escolar tem papel fundamental para o desenvolvimento da personalidade dos rapazes que ali estudam e é comum observar-se a transformação de caráter pela qual os estudantes passam no decorrer dessa convivência. Dessa forma, se no início, Sérgio encara o Ateneu como “interessante, com as seduções do que é novo”, com o tempo passa a conhecê-lo como “intolerável como um cárcere, morada de desejos e privações.” O determinismo, “visão que apresenta o ser humano como produto do meio em que se encontra, da herança (cultural, social e biológica) recebida e das condições históricas características do momento em que vive”[2] é visível em diversas passagens da narrativa – seja na vingança sanguinária de Franco, visto pelo pai como “bom menino, educado, estudioso” ou na forma como Sérgio reflete a formação do caráter: “parece que às fisionomias do caráter chegamos por tentativas, semelhante a um estatuário que amoldasse a carne no próprio rosto, segundo a plástica de um ideal”. Outra característica tipicamente naturalista testemunhada em O Ateneu é a animalização dos personagens – raciocínio influenciado pelo desenvolvimento dos estudos evolucionistas que encaravam o homem tal qual um animal qualquer e, portanto, selecionável pelos processos naturais; em certo momento o narrador declara: “As crianças adiante voltavam os olhos dolorosamente para o diretor, segurando-os uns aos outros pelos ombros, seguindo em grupos atropelados como carneiros para a matança”.
            Já que se mencionou a direção da escola, vale ressaltar a importância desta para o romance. Aristarco é a personificação da figura imponente do Ateneu. Narcisista, “único capaz de bem se compreender e de bem se admirar – de ver-se aplaudido em chusmas por alter egos, glorificado por uma multidão de si mesmos”, e rigoroso em seus tratos, o diretor representa o próprio sistema político e social que (desculpem pelo trocadilho) imperava no Brasil àquela época. Pompéia foi um crítico feroz do Império e defensor tanto do ideal republicano como dos abolicionistas e, pensar no período de publicação de O Ateneu é constatar a influência da conjuntura no desenvolvimento da obra bem como refletir sobre o desfecho da narrativa e como ela pode ser entendida como um retrato da decadência da sociedade imperial brasileira.
            Outro elemento que chama a atenção no romance é o tom sexual que ele possui. Os rapazes que ali estão são obrigados a se virar sozinhos tanto com as dificuldades que surgem na exterioridade quanto com as sensações que despertam dentro de si. A sexualidade é manifesta na faixa etária desses estudantes que, carentes do carinho da família são alvos fáceis das brincadeiras maldosas dos outros e acabam encontrando em colegas mais velhos a proteção e completude que tanto necessitam. Chama atenção a relação de Sérgio com quatro personagens. Rebelo, o qual, logo na chegada de Sérgio ao internato o adverte para a realidade que o novo aluno encontraria:

“Os gênios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo”

            Sanches, com quem tem sua primeira experiência de proteção “naquele meio hostil e desconhecido” que era a escola: “Sanches foi-se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro dele e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cansaço.” Mais a frente, será com Bento Alves que o protagonista encontrará refúgio emocional:

“Um dia abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.”

Por fim, Egbert, com quem Sérgio guarda “ternuras de irmão mais velho”:

“Vizinhos ao dormitório, eu, deitado, esperava que ele dormisse para vê-lo dormir e acordava mais cedo para vê-lo acordar. Tudo que nos pertencia, era comum. Eu, por mim positivamente adorava-o e o julgava perfeito. Era elegante, destro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o coração, até a cor da pele e à correção das formas.”

            A homossexualidade, observada como uma realidade comum no Ateneu, apesar de ser praticada por vários alunos – com conhecimento dos colegas –, fugia ao sistema moralista encabeçado por Aristarco e, dessa forma, aqueles que eram descobertos acabavam sofrendo as punições aplicadas pela justiça da moral, a qual preza muito mais a vergonha diante dos olhares alheios que a culpa da reflexão pessoal. Ao descobrir uma carta de encontro enviada por um aluno a outro, o diretor discursa:

“...Esquecem pais e irmãos o futuro que os espera, e a vigilância inelutável de Deus!... Na face estanhada não lhes pegou o beijo das mães... caiu-lhes a vergonha como  um esmalte postiço... Deformada a fisionomia, abatida a dignidade, agravam ainda a natureza; esquecem as leis sagradas do respeito à individualidade humana e encontram colegas assaz perversos, que os favorecem, calando a reprovação, furtando-se a encaminhar a vingança da moralidade e a obra restauradora da justiça!...”

            Todavia, as personagens femininas, também possuem sua importância no desenvolvimento da sexualidade dos personagens. O tom sedutor com o qual Sérgio refere-se a D. Ângela é tão forte que o rapaz é capaz de perdoar um crime hediondo cometido na escola em nome dela. Ele descreve Ângela como uma mulher de:

“cerca de vinte anos; parecia mais velha pelo desenvolvimento das proporções. Grande, carnuda, sanguínea e fogosa, era um desses exemplares excessivos do sexo que parecem conformados expressamente para pessoas da multidão – protestos revolucionários contra o monopólio de tálamo.”

            Dona Ema ganha, por sua vez, os traços da maternidade perdida no internato e sua relação com Sérgio ganha tons freudianos, em substituição à mãe biológica:

“Desde essa ocasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! Eu não amara nunca assim a minha mãe. Ela andava agora em viagem por países remotos, como se não vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nela...”

            A linguagem aplicada em O Ateneu, ao lançar mão do narrador-personagem, realiza uma mescla da análise psicológica do personagem, comum a literatura realista, com a objetividade posta em prática pelos escritores naturalistas. Chama atenção também que, em meio a tantas situações e questionamentos, o protagonista procure refúgio no céu, nos astros – é recorrente o retorno de Sérgio para o espaço reservado ao estudo de astronomia da escola – característica que, somada ao impressionismo já citado, antecipa um pouco do projeto simbolista que começava a emergir no cenário artístico. Dessa forma, Raul Pompéia – que teria se inspirado em suas próprias experiências de aluno interno – concebeu uma obra rica em discussão tanto sócio-política como artística, tendo como cerne de análise a saudade presente em seu subtítulo. “Saudades verdadeiramente? Puras recordações, saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo – o funeral para sempre das horas.”


[1] Todas as citações feitas da obra de Raul Pompéia foram realizadas a partir da edição publicada pela Martin Claret: São Paulo, 2002.
[2] ABAURRE, Maria Luiza M. Literatura Brasileira: tempos, leitores e leituras, volume único. São Paulo: Moderna, 2005.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O ARTISTA (The Artist – EUA e França, 2011)

Direção: Michel Hazanavicius
            O cinema vive um momento muito curioso. A popularização do 3D nas salas de exibição em todo mundo trás consigo os questionamentos sobre até que ponto essa tecnologia irá crescer e se, no futuro, será capaz de substituir as salas tradicionais. Ora, falar em tradição em uma história de cento e dezesseis anos (serão dezessete em dezembro) é algo complicado, tendo em vista que o cinema já passou por diversas condições como a que testemunhamos e, sempre, foi capaz de se reinventar e manter sua chama acesa. No passado, a sétima arte já teve de conviver com a possibilidade de contar histórias – para além do simples registro de imagens em movimento – sofrendo o preconceito de outras formas de arte como o teatro e, além disso, foi capaz de sobreviver à crise da televisão e do videocassete. Entretanto, de todas as situações adversas – melhor chamar de situações geradoras de questionamentos inflamáveis – aquela que emerge na lembrança de todo cinéfilo é a entrada do som e da fala no cinema e é a essa fase da historiografia cinematográfica que o filme O Artista, de Michel Hazanavicius, nos leva.
            A década de vinte já vivia a experiência dos grandes estúdios de Hollywood(land), da linguagem narrativa clássica popularizada em meados da década anterior pelo controverso Nascimento de uma Nação e sob a imagem do star system, o qual transformava atores e atrizes em ícones da cultura – símbolos da nação. Nesse contexto, surge a figura de George Valentin (um misto de Errol Flynn e Douglas Fairbanks), unânime junto ao público, distribuindo sorrisos para todos os lados, exercendo seu papel de ícone. É no auge do seu sucesso que uma série de acontecimentos irá transformá-lo – a começar pelo seu encontro com a postulante a atriz Peppy Miller. Esse encontro – quase que casual – torna-se a grande chance de Miller que, ao ser fotografada dando um beijo em Valentin, encontra na capa de um jornal a possibilidade de se agarrar em seu sonho, cuja realização se dá gradativamente ao ganhar papéis, cada vez, mais notáveis. Em contrapartida, Valentin convive com dificuldades junto a sua esposa e com os novos projetos do estúdio, o qual pretende abrir espaço para as produções sonoras. A partir desse momento, o espectador se vê diante de uma inversão de papéis, observando a ascensão de Peppy e o declínio de George – cujo preconceito em relação ao som no cinema, bem como o orgulho exacerbado, reflete-se, assim como ocorreu com vários atores daquela época, na perda de papéis importantes; interessante notar essa inversão em uma seqüência em que os dois atores se encontram em uma escada, onde, notoriamente, percebemos Miller dirigindo-se para cima e Valentin para baixo (plano muito bem composto por Hazanavicius).
            E já que mencionei o nome de Hazanavicius, é importante parabenizar o trabalho do diretor que ousou (porque não dizer) em conceber um filme sobre um dos períodos mais interessantes do cinema (muitas vezes levado às telas, vide Cantando na chuva e Crepúsculo dos Deuses), mas lançando mão de uma produção muda – não há falas em O Artista. Curioso notar que tal escolha favoreça um dos elementos que mais saltam aos olhos (ou aos ouvidos) nessa produção que é o som – a trilha sonora do filme é muito bem concebida. Ao assistir a O Artista temos a sensação de estarmos diante de uma verdadeira obra cinematográfica da década de vinte, tamanha a qualidade da reconstituição de época feita pela direção de arte e pelo figurino. Muito além de um filme sobre o cinema mudo, O Artista de renovação, de saber lidar com o novo, adaptar-se à novidade a fim de sobreviver – algo que, como já comentei, o cinema fez muito ao longo dos anos – e, se a história narrada não tem grandes pretensões do ponto de vista da linguagem (o filme segue a cartilha de D. W. Griffith), ainda sim é possível encontrar elementos muito interessantes como determinado som ofegante no ato final do filme e o melhor “bang” catártico que lembro ter visto nos últimos anos – mas isso só dá para discutir com quem assistiu ao filme.   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We need to talk about Kevin – EUA e Reino Unido, 2011)


Direção: Lynne Ramsay

            Selecionado para a mostra principal do Festival de Cannes de 2011 e exibido em sessões disputadíssimas durante o último Festival do Rio, Precisamos falar sobre o Kevin inicia sua narrativa apresentando-nos a uma Tilda Swinton transtornada – quase surtada – entregue a remédios controlados, com dificuldades para relacionar-se com os outros na rua, para arranjar emprego e vivendo em uma casa vítima de atos de vandalismo, bem como o carro que a transporta de um lado para o outro. A personagem em questão é Eva, uma mulher que sofre as conseqüências de ser mãe do executor de um massacre escolar. A película gira em torno dessa mulher e de sua relação, rememorada dois anos depois, com seu filho – aquele que dá título à história.
            Mãe de primeira viagem e, porque não pensar, diante de uma gravidez indesejada, Eva acaba por transformar a experiência da maternidade em um grande tormento e o fato de seu nome fazer referência à personagem bíblica não é gratuita – reparem na dificuldade que é o parto do pequeno Kevin. Dessa forma, a própria relação entre mãe e filho fica pautada pela frieza e, em certos momentos, pela disputa de forças – ponto em que o pai da criança, Franklin, surge para pender a balança em favor de Kevin. Sabendo disso, a criança não tem medo em lançar mão de todo um caráter calculista e possessivo, a fim de conquistar tudo que almeja. É nesse ponto que algumas ações se tornam pouco críveis, uma vez que a criança torna-se a personificação do mau, controlando suas ações no intuito de atingir Eva em sua maior fraqueza, que é a falta de controle que tem sobre ele. A maldade do rapaz parece intrínseca, como uma essência anterior a ele – em certo momento, Kevin (já mais velho), em resposta a afirmação da mãe de que ele é uma pessoa fria, questiona Eva sobre quem ele deve ter puxado, em clara tentativa de atingir a mãe.
            Inclusive, as ações ganham outra conotação quando Ezra Miller assume o papel de Kevin, às vésperas de completar dezesseis anos. Nesse momento, a personalidade do rapaz, já sustentada em uma história – mesmo que ela, no filme, se limite as relações familiares –, tem a capacidade de justificar suas ações – o ciúme que tem da irmã caçula e a simpatia com que trata o pai, sempre recompensada com algo do seu interesse. A relação entre ele e Eva ganha um sentido muito mais freudiano e, aqui, emerge a reflexão sobre as motivações que levam Kevin a planejar o massacre que realiza – afinal, a maior vítima acaba sendo a própria mãe, a qual sofre, além da culpa pelo ato criminoso do filho, com o peso da opinião pública, em especial dos pais que perderam seus filhos no episódio (interessante notar que a única pessoa que a trate bem seja um sobrevivente, ou seja, alguém que viveu a experiência com a própria pele).
            Precisamos falar sobre o Kevin, no meu ponto de vista, seria um filme genial – em função da última cena, cujo propósito é justamente lançar sobre o espectador o interesse em conhecer melhor o Kevin daquele momento diante de Eva – mas, infelizmente, a construção desse personagem, ao longo da narrativa, dificulta um pouco esse processo, fazendo com que o filme seja, apenas, muito bom.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

JOSÉ E PILAR (Portugal, Espanha e Brasil – 2010)


Direção: Miguel Gonçalves Mendes

Existem filmes aos quais as palavras não se aplicam no sentido de defini-los. Assistir, por si só, torna-se a definição, uma vez que a sensação proveniente da tela (e, claro, das caixas de som) encerra qualquer possibilidade afim. Ao se tratar de um documentário recheado de declarações do escritor português José Saramago, tem-se certeza de que o filme fala por si próprio. Isso, claro, se a produção tiver sensibilidade para construir uma narrativa capaz. Felizmente, José e Pilar é competente nesse sentido – o que acaba transformando a película em um grande tributo a seu protagonista, tendo em vista seu lançamento pouco após a sua morte, ocorrida em junho de 2010.
            Partindo do processo de concepção do romance A Viagem do Elefante, Miguel Gonçalves Mendes nos apresenta o dia a dia de Saramago juntamente com sua esposa, a jornalista Pilar Del Rio. Logo percebemos que a ela cabe a responsabilidade de filtrar correspondências e compromissos do marido cuja idade avançada surge como elemento fundamental para tais incumbências e esse fato faz com que Pilar não hesite em lançar mão de seu gênio forte no intuito de equilibrar o bem estar e a agenda cheia de Saramago. Já a Saramago, cabe sua consciência de escritor e cidadão, ressaltada por suas divagações acerca dos mais diversos assuntos – seja política, religião, família, vida e morte. Aliás, a morte é um dos temas mais visitados pelo documentário – ou, melhor, por Saramago. Não são raras as vezes em que testemunhamos o ganhador do Nobel de Literatura refletindo sobre o tempo que lhe resta, aquilo que gostaria de fazer e sua negação ao medo à morte – algo, até certo ponto, discutível, pois os próprios acontecimentos vistos no filme o levam a refletir sobre o fim da vida e suas conseqüências em sua obra e família.
            Outro elemento importante – talvez o mais – está ligado ao relacionamento entre marido e mulher. O amor torna-se uma construção extremamente poética em José e Pilar, estruturada em mínimas cenas ou planos que nunca assumem um caráter piegas. A cumplicidade observada no casal é deslumbrante e ela cresce à medida que testemunhamos certo definhamento em Saramago, fruto das constantes viagens que fez em seus últimos anos de vida.
            Aberto às críticas, crítico feroz da Igreja, gênio da escrita, José Saramago teve papel fundamental na divulgação da literatura lusófona ao redor do mundo e, por isso, torna-se irônico perceber o grau de indiferença proveniente de sua terra natal durante tantos anos – algo que só foi retratado poucos tempo antes de seu falecimento. A política também faz parte do filme e, como resulta sempre em discussões calorosas, não se pode deixar de fazer menção à cena em que marido e mulher discutem suas preferências para a presidência dos Estados Unidos.
            José e Pilar é um filme premiado por excelência. Além de contar com depoimentos de Saramago e Pilar, ainda possui uma fotografia muito eficaz e planos muito bem construídos; reparem no momento em que Pilar dá uma de diretora (ao melhor estilo Leni Riefenstahl) e pede ao motorista que pare o carro para que possa trocar de lugar com o esposo a fim de possibilitar ao câmera um plano mais simbólico.
            Mesmo morto, a obra de Saramago ainda perdurará por muito tempo (pela minha eternidade, pelo menos) e o documentário de Miguel Gonçalves Mendes pode ser reconhecido como um dos responsáveis por eternizar esse gênio da língua portuguesa – gênio da Literatura.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

INCÊNDIOS (Incendies; Canadá – 2010)

Direção: Denis Villeneuve
            É difícil digerir Incêndios – estamos falando de uma rede de informações que resgatam um passado complexo de ser entendido, uma vez que envolve um híbrido de convicção polítco-religiosa com a natureza instintiva da figura materna. E, se a sensação de perplexidade toma o espectador após os minutos finais, tal fato é fruto da construção narrativa apresentada por Denis Villeneuve que garantiu ao Canadá uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano.
            A partir da leitura do testamento de sua mãe, Jeanne e Simon Marwan descobrem que o pai o qual achavam estar morto, na verdade, ainda está vivo e que, além disso, possuem um irmão desconhecido. O último pedido de Nawal é que os filhos entreguem duas cartas, uma ao pai e outra ao irmão desconhecidos deles no intuito de tornar cumprida uma promessa distante no tempo. Realizar esse desejo materno constitui-se em um mergulho intenso em uma série de informações que revelam mais uma pessoa desconhecida para o casal de irmãos gêmeos – dessa vez, a própria mãe.
            Sobre as terras áridas do Líbano (o filme nunca deixa claro que se trata do país, mas a inspiração fica clara no decorrer da narrativa), Incêndios divide-se em duas frentes narrativas que vão se conectando no desenrolar da ação. Por um lado, acompanhamos as investidas de Jeanne e, posteriormente Simon, de coletar informações sobre sua mãe a fim de que possam encontrar aqueles que procuram. Em paralelo, testemunhamos a história de Nawal desde as origens em sua aldeia até as transformações que sofre – influência do caldeirão político a que o Líbano se transformou no final da década de setenta. Interessante notar como a atmosfera histórica que permeia a narrativa serve de motivação para as escolhas que Nawal realiza. Isso se dá, tendo em vista que não se trata de um filme sobre a guerra do Líbano e, sim, sobre as escolhas – muitas vezes ilógicas – a que uma mãe é levada por sua própria natureza materna e humana. Dessa forma, a origem cristã de Nawal é irrelevante para ela em meio a tantos conflitos religiosos quando o assunto é seu filho perdido.
            Em meio ao terror da guerra que transforma seres humanos em assassinos em potencial – o filme mostra isso de forma eficaz, apresentando ações covardes em ambos os lados (cristãos e muçulmanos) – o casal de irmãos gêmeos vão desenhando a própria origem em uma forma de retratação póstuma montada por Nawal. Entretanto, essa conclusão só é possível após as revelações finais do roteiro, as quais possuem efeito semelhante a um soco na cara, tamanho o impacto de tais informações nas personagens e no espectador. Convincente em sua estrutura, Incêndios possui um dos melhores desfechos da safra de filmes do ano passado e, se certas coincidências parecem fugir à normalidade, é porque nem sempre um mais um tem dois como resultado.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

CREPÚSCULO DOS DEUSES (Sunset Boulevard – EUA, 1950)

Direção: Billy Wilder

            Se Charles Foster Kane, lendário protagonista daquele que é considerado o melhor filme de todos os tempos – Cidadão Kane, abriu as portas da mídia impressa norte-americana, mostrando aos mundos seus podres e os métodos nem sempre honestos de se alcançar o poder, Norma Desmond  tem o mesmo mérito em relação à indústria cinematográfica dos Estados Unidos pós Star System. Diante disso, é fácil entender o porquê de Crepúsculo dos Deuses ser um filme ousado – mesmo hoje – e o fato de não ter sido unanimidade à época de seu lançamento.
            Joe Gillis é um roteirista à beira do fracasso que não consegue convencer nenhum estúdio a produzir seus roteiros. Endividado e perseguido por alguns agiotas, Gillis acaba encontrando refúgio em uma enorme mansão que pensa estar abandonada. Lá ele conhece uma antiga atriz de filmes mudos, Norma Desmond, cuja vida limita-se a ficar enclausurada em sua casa juntamente com seu criado Max Von Mayerling. A partir desse encontro, eles tentarão reconstruir suas carreiras juntos, criando uma relação entre os dois que ultrapassa os limites do meramente profissional.
Buscando fugir da linguagem narrativa clássica – uma série de convenções da sintaxe cinematográfica que dominam, até hoje, a forma de se contar uma história em filme e cuja instituição é direcionada ao nome de D. W. Griffith e seu filme O Nascimento de uma Nação – o filme de Billy Wilder começa pelo fim, quando a polícia chega a casa de Desmond para investigar uma denúncia de assassinato. Boiando na piscina da residência está o corpo de Gillis, o qual inicia – mesmo morto – a narrar todos os acontecimentos que acompanharemos dali em diante. O famoso narrador-defunto que Machado de Assis trouxe em seu famoso romance Memórias Póstumas de Brás Cubas e que causou certo espanto no limiar do século passado em Beleza Americana se torna um elemento ousado para a época que Wilder lançou sua película. Além disso, vale atentar para a grandiosidade da direção de arte, representada, principalmente, pela mansão de Desmond – a transformação que eleva do fracasso da piscina cheia de ratos e da quadra de tênis entregue ao abandono à redenção testemunhada nesses cenários. Entretanto, se engana quem pensa que essa transformação acompanha uma redenção dos personagens protagonistas, quando, na verdade, ela está intimamente relacionada, unicamente, à emoção de Norma Desmond, que encontra em Gillis uma válvula de escape para a carência que experimenta ao longo dos seus solitários anos, além dele representar uma nova chance para ela no cinema.
E, se citamos Norma Desmond, não podemos deixar de lado a magistral composição dada a ela pela atriz Gloria Swanson – entregue emocionalmente e fisicamente à personagem. Swanson oferece a Desmond um ar de diva, uma estrela cadente que se recusa a apagar e seus movimentos grandiosos e, muitas vezes exagerados, remetem ao próprio status de grande atriz do cinema mudo que ela insiste em ostentar. Aliás, essa condição é traduzida por uma das melhores falas do filme – e, por que não, do cinema – ela, ao ser abordada por Gillis como uma atriz que era grande nos tempos de cinema mudo, responde sem titubear: Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos. Já Joe Gillis, vivido pelo ator William Holden, o qual poderia ser suprimido por Swanson, consegue manter o embate sempre à altura, lançando mão de um olhar irônico que denuncia sua crença em uma superioridade que não possui. É justamente seu convívio com o fracasso que fará com que reveja seus métodos e aceite, inclusive, a ajuda de outra escritora para criar um novo roteiro.
Muito além de um simples filme sobre dois profissionais da sétima arte em busca do reconhecimento de seus trabalhos, Crepúsculo dos Deuses é uma grande e ácida crítica aos grandes estúdios de Hollywood e seus métodos que, na busca pelo lucro desenfreado, acabam desvalorizando o trabalho de inúmeros profissionais ou jogando diversos de seus astros ao ostracismo. Billy Wilder teve a coragem de mostrar o que há por debaixo dos tapetes vermelhos e a presença de um grande diretor de cinema como Cecil B. DeMille em cena, interpretando ele mesmo, só oferece credibilidade à denúncia que testemunhamos na tela. Sem dúvida, um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e não posso terminar essa resenha sem chamar atenção para a última seqüência da película, a qual, óbvio, não irei contar e, sim, elogiar, pois a sensação que tive ao assisti-la é a mesma que todos aqueles personagens demonstram como testemunhas da descida de Norma Desmond, ou seria Salomé, pelas escadarias rumo ao seu grande close. Seqüência, essa, que se manifesta como extremamente atual, uma vez que podemos nos perguntar se as estrelas de cinema, hoje, são mais conhecidas pela sua competência em cena ou se pela vida íntima e seus escândalos intrínsecos.  

terça-feira, 3 de maio de 2011

O BANHEIRO DO PAPA (El Baño Del Papa – Uruguai, 2009)

Direção: César Charlone e Enrique Fernández

            César Charlone é um grande conhecido do cinema brasileiro. É ele quem assina a premiadíssima fotografia de Cidade de Deus com a qual conseguiu, inclusive, uma das quatro indicações ao Oscar que o filme nacional recebeu no ano de 2004. Uruguaio de nascença, Charlone aventurou-se pela primeira vez na direção cinematográfica nessa pequena obra-prima intitulada O Banheiro do Papa, contando com o auxílio de Enrique Fernández nesse trabalho. Os dois também assinam o roteiro da película o qual surge como o ponto alto dessa narrativa audiovisual cuja temática abrange questões bem atuais e, também, bem universais.
            Um pequeno vilarejo uruguaio próximo à fronteira com o Brasil está em polvorosa com a proximidade da visita do papa João Paulo II ao lugar. O evento é encarado como histórico para a região e abre a possibilidade da cidadezinha receber milhares de turistas vindos de terras brasileiras – o que será explorado pelos habitantes do local como fonte de renda para a população. A ideia é que, com a chegada dos fiéis do país vizinho, ocorra grande procura por alimentos e, assim, os moradores resolvem usar seus dotes culinários para vender os mais variados tipos de comida. Para Beto, entretanto, o plano segue outro caminho. Sabendo que, com tantos alimentos sendo servidos, os turistas precisarão realizar suas necessidades fisiológicas, ele decide construir um banheiro para utilizar como serviço higiênico aos visitantes. A questão é que existe a necessidade de adquirir dinheiro para a obra e esse se torna o grande desafio dele.
            A construção do personagem protagonista, Beto, é de forte sensibilidade. A atuação de César Trancoso nunca se torna exagerada, possibilitando momentos de angústia e humor de forma natural. Aliás, todo o desenvolvimento da ação dramática transcorre de forma natural – o que faz com que os questionamentos sejam apresentados de forma sutil, porém eficiente. Interessante notar como uma pequena cidade, cuja principal fonte de renda é proveniente do contrabando de produtos brasileiros, coloque suas esperanças em uma visita de um dia do papa em seu território. Mais interessante é o fato dessa esperança ser produto de uma especulação midiática em torno do número de brasileiros que se espera durante a visita de Sua Santidade. A questão da mídia é muito bem colocada na narrativa e, sempre suscitada por Silvia – filha de Beto – cujo sonho maior é trabalhar como jornalista e, dessa forma, torna-se elemento motivador para seus pais juntarem dinheiro, já que o curso que pretende realizar é dispendioso.
            Criticando o velho discurso de que grandes eventos são capazes de transformar para melhor os lugares onde são sediados, O Banheiro do Papa, surge como um alerta social, abrindo os olhos do espectador para uma questão simples: não adianta basear as melhorias sociais em um evento singular, mas em um conjunto de ações contínuas – algo muito bem explorado por um conjunto de imagens que surgem em uma sequência no ato final do filme. E se a primeira vista, a narrativa parece caminhar para o melodrama, um dos grandes feitos do roteiro é proporcionar momentos bem humorados na trama. Seria muito bom que, em época de preparação para Copa do Mundo e Olimpíadas, os líderes políticos brasileiros se permitissem assistir a essa bela obra do cinema latino-americano. Mas será que haveria sensibilidade para isso? Temos uma longa década para nos certificarmos disso.