domingo, 7 de setembro de 2014

O MENDIGO

            Cansado do excesso de informação, o mendigo destoa do restante e relaxa na esquina. Centenas de passos o cercam, o ignoram e – de forma naturalizada – o condenam. Entretanto ninguém entende a cidade como o mendigo e naquele curto espaço de tempo, descansando diante da esquina, observa o que ninguém mais nota. A cidade.

Faço parte disso tudo, pensa. Entende que a cidade sem mendigo ou mendigo sem cidade é como esquina sem dúvidas. Para que lado ir?

Não existe lado certo – se é o certo que tendemos a procurar. Cada canto da esquina é um novo mundo esperando por ser descoberto. Mas a ninguém interessa tal premissa. Mas ao mendigo interessa.
Levanta e segue pela esquina. Por qual canto? Não interessa.
Mario Chris

Amsterdã, 23/06/2014

domingo, 1 de junho de 2014

PLATONISMO

Foi na esquina que aprendi a ler. O j seguido do o fechado, formando jo. O s, estranhamente com som de z, seguido do e aberto. E agora, José? A esquina é um passado que insiste em estar no meio do caminho. Ah, minha esquina querida...

Se tanto saudosismo fosse capaz de trazer de volta o que já se foi.

A esquina, mar de soluços descompassados.


A esquina soa perpendicular somente por resquícios da razão, pois do ápice da percepção – fruto da distância carnal – a esquina sempre será um sinuoso espectro de emoções tal qual um amor platônico, um amor barroco.

Mario Chris

sábado, 10 de maio de 2014

A ESQUINA

Saltou do ônibus à esquina e contava menos de trinta. Sentou-se ao meio-fio com toda sua mocidade marota contrastada por um ar de maturidade que fazia questão em exalar. Em meio a tantos transeuntes e automóveis estranhos, reconheceu-se como parte integrante da esquina.

Todavia sua condição não era fruto do mero instante. Era a memória com toda sua lealdade traíra. E além, pois sabia – embora não lembrasse – que tinha uma relação placentária com a esquina e sempre que sentia-se aflito, recorria a ela como recorro à escrita.

Somos um só: personagem, narrador e escrita.

Diria mais: somos todos esquina.


Mario Chris

NÃO SEI BRINCAR

Já tomei vodka, hoje tomo mescalina
Tenho todos os sentidos realçados menos um, o da razão.
E se me chamam imoral,
foda-se o padrão!
Uns têm leveza, outros não.
Já perdi chave e documentos
Agora perco a noção.

No carnaval das sensações

sinto como ninguém o ritmo do meu coração.
E se o japonês traz haxixe,
entra na roda, meu irmão.
Pois na criatividade sem graça de hoje
só nos resta pandeiro e violão.
Cantemos, então...

Mario Chris

sexta-feira, 25 de abril de 2014

SANGUE NEGRO (There will be blood – EUA, 2007)

Direção: Paul Thomas Anderson
            A genialidade de Paul Thomas Anderson nesta obra começa pelo título (original). There Will be blood é muito mais que um título ilustrativo; é um aviso: haverá sangue – e a veracidade deste aviso toma forma com o desenrolar da narrativa. Largando o intimismo que perpassou sua obra cinematográfica em filmes como Magnólia e Boogie Nights, Anderson adentra o território da narrativa épica, fazendo-o de forma eficaz, resgatando de forma competente um estilo outrora explorado, mas há muito esquecido (não falo aqui das narrativas ao estilo Senhor dos Anéis, mas dos épicos norte-americanos ao estilo Assim caminha a humanidade). Livremente inspirado no livro Oil! de Upton Sinclair, Sangue Negro acompanha a ascensão de Daniel Plainview, desde sua origem na exploração de minério até seu enriquecimento com o petróleo e, se ambas as riquezas surgem do subsolo para atender à ganância deste complexo protagonista, é interessante notar que Anderson – e mais especificamente a soberba atuação de Daniel Day Lewis – explora justamente as mais internas camadas da alma de Plainview,seja para analisá-la ou para constatar sua ausência, dependendo da interpretação que se prefira seguir; repare como Plainview constantemente surge sujo em cena: terra e petróleo em referência ao teor de seu caráter.
            Acompanhado por seu “filho”, H.W. Plainview, cujo papel é trazer uma atmosfera familiar e humanista a seus negócios (e o fato dessa relação ser totalmente pautada por interesse fica evidente pela reação de Daniel quando o rapaz se torna um problema para os negócios e isso acontece mais de uma vez ao longo do filme), Daniel chega a uma área promissora para a exploração onde percebe a chance de enriquecer ainda mais à custa da ingenuidade da população local. A questão é que Plainview se depara com um jovem pastor, cuja capacidade oratória e o gosto pelo espetáculo se equiparam a suas abordagens, o que o torna um claro oponente na busca por seus interesses. Vale ressaltar que recai sobre Paul Dano a responsabilidade de dar vida a Eli Sunday (Sim! Domingo é o dia santo!) e é de suma importância para a eficácia da narrativa que ele não seja engolido em cena por Daniel Day Lewis, o que desmontaria todo o embate e toda a proposta de Sangue Negro.
            Paul Thomas Anderson, um dos diretores mais eficientes de sua geração, vai muito além da história do explorador de petróleo, demonstrando como a mentalidade norte-americana foi produzida pela junção ganância – religião em seu estado mais acessível: o espetáculo. Não são raras as vezes que percebemos Eli ou Daniel lançando mão das mais variadas estratégias para atrair a atenção de seu público: figurino, cenografia, impostação vocal entre outras. Nesse ponto torna-se impossível não relacionar o protagonista de Sangue Negro com outro personagem icônico da historiografia do cinema: Charles Foster Kane. Ambos os personagens são ricos e buscam no dinheiro o escape para as ausências afetivas que permeiam suas vidas: se o personagem título de Cidadão Kane acaba por buscar refúgio no Rosebud balbuciado em seu leito de morte, Daniel Plainview ainda busca graus de parentesco em que possa encontrar afeto, fato que gera certa frustração, para não dizer ódio (observe a reação de Daniel ao descobrir determinada farsa envolvendo um parente próximo).

Sangue Negro é um filme difícil de esgotar. São sequências e mais sequências com alto teor artístico e que muito acrescentam à narrativa – sem falar da eficiente trilha sonora que nos arrasta para os conflitos de Plainview e da belíssima fotografia vencedora do Oscar. Certamente um filme que precisa ser visto e revisto nos mínimos detalhes e que fatalmente causará uma impressão no espectador – um incômodo digno de discussão, algo mais que necessário para se considerar uma obra eficiente: There Will be blood é.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

UM SORRISO DOMINICAL

            Lembro-me de minha família. Dos domingos sentados à mesa. Do almoço servido quentinho em uma esquina tijucana. Entretanto...
            Não eram os almoços de domingo os verdadeiros laços. Os almoços de domingo tinham um quê de burocrático – algo de tradicional cuja realização pairava entre o obrigatório e o racional. Os sorrisos dominicais limitavam-se ao bater ponto no domingo de folga.
            Bom mesmo eram os domingos sob a maresia da Região dos Lagos. Aqueles domingos eram incessantes, sem intervalos semanais. Acordar pela manhã ao som da cozinha ganhando vida. Flanar pelos cantos da casa sentindo os sorrisos cheios de liberdade que desembocavam nas tardes na praia, culminando em um pôr-do-sol inviolável. As viagens à Região dos Lagos eram os verdadeiros laços.
            Hoje, ainda inebriado pelas lembranças, quando acordo em uma esquina de Copacabana, finjo ser o som da cozinha as conversas de outrora. Fecho os olhos e imagino pelo menos um sorriso dominical que sirva de elixir para mais um dia.
Meu sorriso dominical tornou-se um laço maquiado com o pó da tradição e a sombra da burocracia.
Mario Chris

Rio de Janeiro, 09/04/2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

OSCAR 2014 – parte 2

Terminada a 86ª Cerimônia da Academia, o saldo da noite respeitou o que era esperado, dividindo os prêmios entre os grandes favoritos da noite 12 anos de escravidão e Gravidade – sendo que este ficou com 7 prêmios, em sua maioria técnicos, enquanto que o filme de McQueen recebeu 3 prêmios de primeiro escalão, incluindo o de Melhor Filme. Com relação as minhas expectativas, elas também foram atendidas, pois apesar de meu favorito Ela ter saído apenas com o prêmio de Melhor Roteiro Original, os filmes supracitados eram, respectivamente, meus segundo e terceiro votos. Só para relembrar o que comentei no meu post anterior, meus votos na categoria melhor filme seriam: Ela, 12 anos de escravidão, Gravidade, O lobo de Wall Street, Clube de Compras Dallas, Nebraska, Trapaça, Capitão Phillips e Philomena. Interessante notar que dos nove finalistas na categoria principal, cinco ficaram sem nenhum prêmio, o que não deixa de ser curioso, já que a academia, há cinco anos, aumentou o número de finalistas a fim de poder agraciar filmes que não teriam chances de indicação com o limite de cinco finalistas. Fica a sensação de que, apesar de conseguirem a visibilidade de se tornarem um Academy Award Nominee, esses filmes ainda não têm força para se tornarem Academy Award Winner – e de fato não estamos falando de filmes ruins, se lembrarmos que um deles, Trapaça, era dado como favorito, por ser um dos recordistas de indicação (acabou sendo um dos maiores derrotados de todos os tempos). Completam a lista de derrotados: O lobo de Wall Street, Nebraska, Capitão Phillips e Philomena.
Dentre os vencedores, cada um ficou com os prêmios que já aguardavam: Clube de Compras Dallas ganhou as categorias de melhor maquiagem e penteado, melhor ator coadjuvante e melhor ator; Ela recebeu o prêmio de melhor roteiro original, Gravidade (campeão em número de prêmios) subiu ao palco para receber melhor edição de som, melhor som, efeitos visuais, trilha sonora, fotografia, edição e direção, já 12 anos de escravidão recebeu melhor roteiro adaptado, atriz coadjuvante e melhor filme.
Apesar de não ter acompanhado os lobbys em torno dos indicados, logo no tapete vermelho dava para perceber que Lupita Nyong’o ganhou os holofotes e, de fato, ela estava belíssima em seu vestido Prada – ali passei a perceber que o prêmio de melhor atriz coadjuvante poderia tropeçar (não resisto à piada) das mãos de Jennifer Lawrence como de fato ocorreu. Justiça foi feita, o trabalho de Lupita é fantástico e ela estrela a cena mais comovente do filme de McQueen. Quanto aos lobbys negativos, aquele feito contra a atriz Cate Blanchett não surtiu efeito – relacioná-la ao nome de Woody Allen, querendo desmerecê-la por estar “envolvida” profissionalmente com um homem acusado de pedofilia, aumenta ainda mais o absurdo que é essa acusação descabida de Mia Farrow. Assim, Blanchett recebeu seu segundo merecidíssimo Oscar, desta vez de Melhor Atriz pelo também ótimo Blue Jasmine. Já o outro lobby negativo funcionou – O lobo de Wall Street, que não agradou parte da crítica por parecer fazer justiça a um estilo de vida reprovável, um absurdo por demonstrar que tais críticos não sabem o significado de ironia, acabou saindo de mãos abanando – enfim, já tinha dissertado sobre como seria difícil o filme de Scorsese ganhar algum prêmio (tamanha era a qualidade dos principais indicados).
Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, a Itália saiu da fila de quinze anos com uma obra muito poética de Paolo Sorrentino. Há muito tempo que não vejo uma seleção de filmes estrangeiros tão boa – faltou assistir ao indicado palestino. Todavia qualquer um dos outros que ganhasse faria jus ao prêmio. A grande beleza é um filme de qualidade impecável como há muito não vejo, cinema italiano em estado puro – sem faltar referências ao mestre Felinni. Interessante que, além da referência felliniana no filme italiano, tivemos a referência a Chris Marker no filme do Cambodja. Vale a pena conferir Alabama Monroe, A caça e A imagem que falta.
Os dois prêmios mais importantes: direção e filme acabou sendo dividido, conforme esperado, pelos filmes Gravidade e 12 anos de escravidão. O prêmio de melhor direção coroou o trabalho de Alfonso Cuarón, que, apesar de alternar de gênero, manteve sua pegada e sua qualidade em nos agraciar com momentos de tensão e em estudos de personagem bem elaborados – desde E sua mãe também, Cuarón flerta com a Academia, sem nunca ter recebido um prêmio (este ano saiu com dois, já que também foi responsável pela edição do filme). Já Steve McQueen subiu ao palco para receber o prêmio mais cobiçado da noite. 12 anos de escravidão é um filme com pegada crítica que demonstra ser bem atual, não apenas porque ainda testemunhamos cenas de escravidão propriamente dita, mas pelo fato de que muitas vezes, apesar de sermos livres, sentimo-nos presos a um sistema que nos escraviza. Enfim, o mais importante é o fato de que 12 anos não trabalha com os típicos estereótipos de filmes de escravidão – não temos o negro caricato, engraçado como costumamos observar, por exemplo, nas novelas globais, ou o americano herói que, travestido de messias, salva todo mundo (reparem que o personagem de Brad Pitt é canadense). Filmes sobre esse tema não podem – não devem – abrir espaço para escape emocional e McQueen conseguiu fazer isso e, de fato, incomoda perceber o que nós, brancos, causamos com nossos semelhantes. Não à toa que livro e filme passaram a ser obrigatórios nas escolas públicas norte-americanas.
De fato,

Sobre a cerimônia, considerei interessante o fato de Ellen de Generis ter quebrado a formalidade da festa com seus selfies e com uma rodada de pizza aos convidados.