Autor: Joseph Conrad
“um
homem deveria enfrentar sua má sorte, seus erros, sua consciência,
e todas essas coisas. — Ora – o que mais há para se combater?”
(A linha de sombra)
Curioso atentar para a nota que abre
a edição em questão de A
linha de sombra.
Escrita em 1920, portanto três anos após a publicação original da
obra, a nota de Joseph Conrad faz referência ao equívoco gerado por
mais de um crítico em tomar sua novela como uma “intenção de
abordar o sobrenatural” e busca elucidar a obra – ao demonstrar
que seu objetivo era a “apresentação de certos fatos que
realmente estavam associados com a mudança da juventude,
despreocupada e efervescente, para o período mais autoconsciente e
pungente da vida mais madura”. Inicialmente frustrante para os
anseios juvenis do primeiro contato, tal nota ganha sentido
diferenciado quando analisada por um olhar, digamos, mais
amadurecido. Meu primeiro contato com esta obra deu-se no limiar dos
dezesseis, quando, ainda cru para as responsabilidades da vida,
guardava aquele ar orgulhoso de ex-infante que insiste em se achar
maduro o suficiente para encarar o devir. Naquele momento, ao tomar o
livro em minhas mãos, cometi o mesmíssimo erro dos críticos de
outrora; pura ingenuidade. Hoje, ao pressentir os passos de Balzac
aproximando-se de minha porta, começo a refletir sobre o significado
de meu passado e “ele parece preencher o mundo inteiro com sua
profundidade e magnitude”. Nesse ponto retomo A
linha de sombra e
lhe ofereço uma conotação bem mais rica que aquela de doze anos
atrás.
A linha de sombra, a mim parece, é
muito mais uma sombra que uma linha, um espaço físico, mesmo que
metafórico, que se coloca a nossa frente, através do qual é
necessário passar, embora tenhamos o conhecimento tardio que nele
permaneceremos (ou permanecemos – leia no presente ou no pretérito
perfeito do indicativo) por um período de tempo variável de pessoa
para pessoa. Faço tal referência por sentir a sombra pairando sobre
minha cabeça e, mesmo que perceba a maré me encaminhando novamente
rumo à luz, sinto necessidade de extrair o máximo desse parafuso
que insiste em dar voltas e mais voltas.
Não se deve considerar a permanência
sob a sombra como um período de não evolução, e sim como um
período de transformação; lembremos as palavras do filósofo
francês Henri Bergson, que afirmava que “mudamos incessantemente”
e que “o próprio estado já é mudança” - não há diferença
entre passar de um estado a outro e persistir no mesmo estado:
“Nossa
personalidade, que se edifica a cada instante a partir da experiência
acumulada, muda incessantemente. Ao mudar, impede que um estado,
ainda que idêntico a si mesmo na superfície, se repita algum dia em
profundidade. É por isso que nossa duração é irreversível. (…)
“Assim,
nossa personalidade viceja, cresce, amadurece incessantemente.”
Todavia, na tentativa talvez
infundada de interpretar o pensamento do escritor Joseph Conrad, a
sombra – do ponto de vista de quem já acumulou inúmeras
experiências – constitui-se como uma linha diante da imensidão do
mar, tomado aqui como metáfora das vivências. A narrativa da obra
de Conrad estrutura-se de forma memorialista – o protagonista
relembra uma experiência específica e fundamental para seu
amadurecimento como indivíduo e o faz através do escopo de uma
confissão, tal qual demonstra o subtítulo da novela. Assim não é
difícil entender o porquê de tomá-la como referência tal qual
tomamos uma conversa despretensiosa entre um pai ou um avô com um
filho angustiado com os desafios que surgem à sua frente. Tal
analogia, pois a obra desse escritor britânico de origem polaca
apresenta-se inicialmente como despretensiosa, alcançando um efeito
profundo após sua leitura.
A
história – marcada pela posição do protagonista em não se
identificar pelo nome (seria o próprio Conrad? entendo como uma
tentativa bem
sucedida
de universalizar um contexto deveras específico, todavia
poderoso em seu teor metafórico)
– é a de um jovem capitão convocado para seu primeiro comando e
colocado à deriva pela ausência de brisa enquanto observa sua
tripulação moribunda, vítima de uma febre tropical. A ausência de
brisa é representativa da sombra que encobre o personagem – nada
mais análogo ao
processo de amadurecimento dele; a
chave para a ansiedade e o terror que caracterizam a
profunda descoberta da condição humana em
resposta à “pretensão da humanidade à direção de seu próprio
destino”.
O mar, essa imensidão desafiadora,
atraente e dominadora, resgata bem a ideia do devir. Seu caráter
libertador contrasta com o espaço claustrofóbico representado pelo
navio e sua quase inoperância total, fruto da calmaria e da
incapacidade dos tripulantes acometidos por doença – condições
que exigem ação mediante a sentença da incerteza; a necessidade de
crescer, abandonando as ilusões despreocupadas da juventude, em
suma, lançar-se à sombra. Ao protagonista resta a dor do processo,
caracterizado por “um tumulto de vitalidade em tortura, de dúvida,
auto-acusação, e uma infinita relutância em encarar a horrenda
lógica da situação” e as consequentes marcas da transformação,
visíveis aos olhos de quem merece eterno apreço, lições
constantemente somadas a quem evolui incessantemente:
“-
Está
tudo certo, ele disse calmamente. - Você logo aprenderá a não
ficar desanimado. Um homem tem que aprender tudo – e isso é o que
tantos daqueles jovens não entendem.
“-
Bem, eu não sou mais um jovem.
“-
Não, ele admitiu.”