sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

POETA INSENSÍVEL

Na calva escura da lagoa
um pescador solitário afunda
O lodo fofo suga o pescador
na calva escura da lagoa

Seu suplício consentido,
ao chorar os peixes perdidos,
é percebido por um poeta insensível
que na calma ociosa do espírito
apenas escreve.


Mario Chris

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

DEZ ANOS DEPOIS

Entre tantas ofensas descabidas, certo dia sentamos e conversamos e o peso daquela conversa... o peso daquela promessa...
Destilado, fermentado, inalado ou tragado, sempre soube que o teor das ofensas e, até mesmo, as tentativas de agressão física nunca foram sinceros. Mas doeram e doem quando lembrados.
Entretanto, um dia, conversamos e decidiste partilhar comigo o peso da tua dor e o pacto foi tão profundo que choramos juntos. Naquela noite partilhaste o vício e percebi um dependente de carinho – dali para frente a cumplicidade foi intensa (lembras de como ficávamos preocupados com ela?).
E foi em função dessa preocupação, e dessa cumplicidade, que me revelaste a última dor e como foi difícil mantê-la em segredo e quantas noites mal dormidas por saber que não era capaz de cumprir minha promessa...
O tempo passou... não me foge à lembrança, a conversa que mudou minha infância

CONFABULAÇÕES

Se nesta vida nada faz sentido
Se nada faz sentido no amor,
no humor, no torpor
sem calor...
Ao menos nada
contra a corrente intrépida do rumor


Mario Chris

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

SOBRE O ENCONTRO


Encontraram-se na mesma esquina de antes e deram um sorriso discreto. Voz baixa, quase inaudível:

Como está?”
Bem e você?”
Também...”

Não se entendessem tão bem, passaria despercebido.
Abraçaram-se como à eternidade e seguiram caminho satisfeitos de se amarem com tanto respeito.

Mario Chris

Rio de Janeiro, 30/10/2014

(A Nico)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ATEÍSMO

Para o mundo! Eu quero descer!
Mas na hora do rush o tráfego é intenso
Com todo respeito, seu motorista, o senhor não existe.
E riram juntos da piada da criação

Mario Chris


Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2014

TRISTESSE

Triste não é ser triste
É sentir a aurora brotar no papel
incapaz de fazê-la brilhar no céu
Triste não é ser triste
É fingir um sorriso acalorado
que esconde um coração angustiado
Triste é um discurso amargo
disfarçado de amor alado
Um espírito solitário
por si mesmo abandonado

Mario Chris
Rio de Janeiro, 29/10/2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

PAIXÃO CONCRETA

Beijou a esquina como se não houvesse amanhã. Não havia amanhã. Sem paixões fugazes nem amor verdadeiro. Tudo esvaiu-se em cor de pétala no asfalto. Tudo lançado ao ar vinte andares atrás.

À multidão fumegante resta o dom da dúvida em um conglomerado de porquês.

O casal se abraça. Amam-se mais que nunca.
A criança chora assustada com o espetáculo da vida.
A senhora se benze, despachando o defunto.

A carta balbucia “amém”, enquanto a esquina engole a todos em um ato de comunhão.

Mario Chris

Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2014