quarta-feira, 31 de março de 2010

POETA SEM MUNDO

Sente-se parte deste mundo?
onde, cada vez mais,
amizade é fantasia virtual,
felicidade, anestesia de poucos,
liberdade é sonho de todos
Somos parte de um mundo?
Que mundo é este? O que somos?
Somos seres de outro mundo
que caíram num obscuro sem fundo
em que ser homem é ser imundo

MARIO CHRIS

domingo, 25 de outubro de 2009

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (Entre les murs - França; 2008)


Direção: Laurent Cantet

Trabalhar com educação é um dom que, na maior parte das vezes, é acompanhado por um sentimento de idealização. Impossível não refletir sobre uma profissão mal remunerada e que atrai tantos profissionais empenhados na sua realização. Apesar de pouco valorizado, o magistério é, no meu ponto de vista, uma das mais belas contribuições que um indivíduo pode oferecer a sociedade – obviamente quando bem realizada. E, a partir dessa convicção, acredito que uma pessoa se torna professor pelo prazer e pelo dom de ensinar, já que não pode esperar por altos salários. Entretanto, o professorado é uma camada de profissionais que vivem intensamente com as contradições da sociedade e os estresses provenientes destas. Por trabalhar com educação há cinco anos já passei pela experiência de acreditar que dar aula é o maior prazer que um ser humano pode possuir (e, de certa forma, ainda acredito nisso), esquecendo-se dos contras que existem nas relações escolares as quais, considero, uma das mais complexas que existe (leia-se professor, alunos, pais, instituição escolar e educação). Exemplos desses contras são inúmeros, mas só podem ser vivenciados Entre os muros da Escola.

A escola, como qualquer ambiente de interação social, é um ambiente propício a estereótipos. Entretanto, são características que brotam do ser humano a partir das experiências que possuímos ao longo de nossas vidas – são métodos de identificação, auto-afirmação, rebeldia. No caso específico do ambiente escolar, é possível perceber que essas formas de interação dão-se numa esfera micro e, portanto, mais propensas a conflitos – ainda mais se pensarmos que vamos a escola por obrigação e que os adolescentes, mais que ninguém, sentem a necessidade da identificação. O roteiro de Entre os Muros da Escola permite que o espectador vivencie essas condições por um ponto de vista duplo, um grupo de professores e uma turma de 8º ano, sem, no entanto, cair nos estereótipos tantas vezes abordados pelo cinema e televisão ou no maniqueísmo que insiste em transformar um dos lados em vilão. Optando por uma estética simples, mas, nem por isso fraca, Cantet realiza uma viagem por um período escolar sem interferir com sua câmera nas ações dos personagens, o que me remete ao filme de Gus Van Sant, Elefante. Além disso, Entre os muros da escola também se assemelha ao filme de van Sant por utilizar atores que interpretam versões deles mesmos e, por que não lembrar, por ter sido consagrado com a Palma de Ouro em Cannes.

Com essa receita, Cantet nos oferece vivenciar (insisto nesse termo, pois ao assistir Entre os muros da escola temos a sensação de estar imerso a narrativa como se fizéssemos parte da diegese do filme) os conflitos típicos da juventude e os atritos que eles podem ter com a necessidade de disciplina do colégio e, por conseqüência, dos professores. Sob a figura de François, observamos as dificuldades que os profissionais da educação possuem em atender a demanda educacional – por mais que exista boa vontade e interesse, em níveis que variam com o passar do tempo, de ambas as partes. Quando menciono demanda educacional, refiro-me a conteúdo programático, respeito dentro de sala e confiança no trabalho que realiza por parte dos pais, dos alunos e da própria instituição. François, assim como seus colegas de trabalho, dão suas aulas, se reúnem para discutir questões disciplinares, notas, conteúdo de aula, o preço do café, a gravidez de uma colega... São propensos a sentimentos, como qualquer ser humano – frustração, raiva, felicidade. Bem como seus alunos os quais têm que conviver com as contradições da idade, as dificuldades de relacionamento, os problemas domésticos e, no caso específico do filme, questões culturais como racismo e xenofobia. No meio dessa complexa rede de relações está situado o provável protagonista do filme que é a própria escola. Entre os muros da escola se torna um filme necessário, por trazer para a pauta de discussões o papel da escola e daqueles que ali convivem. Uma narrativa que torna universal uma questão que muitos pensam que é de interesse regional. Um filme que termina com duas seqüências belíssimas que demonstram como a relação professor-aluno, assim como qualquer relação, sempre será contraditória e que apesar dos problemas, essa ainda é uma das mais belas relações que podemos possuir ao longo de nossas vidas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

LIBERDADE PARA AS BORBOLETAS (Butterflies Are Free - EUA; 1972)


Direção: Milton Katselas


Em determinado momento de Liberdade para as Borboletas, a mãe de Don Baker pergunta a Jill por quanto tempo ela esteve casada, ao passo que a jovem responde: “Seis dias”. A reação não muito espantosa da Sra. Baker se resume na fala que define a resposta que recebera: “E no sétimo dia você descansou?”. A referência bíblica não só faz parte de uma série de falas muito bem construídas que são colocadas de forma eficaz no roteiro adaptado da peça de Leonard Gershe (ele assina a versão cinematográfica também) como revela o peso moral que a personagem materna representa no desenvolvimento narrativo.
Claramente baseado no velho ditado que diz: “o amor é cego”, Liberdade para as Borboletas narra a história de um jovem rapaz deficiente visual (Don Baker) o qual sai de casa na esperança de conseguir viver por conta própria e acaba conhecendo e se relacionando pela recém-chegada vizinha (Jill). Don sai de casa para se afastar do modelo superprotetor de sua mãe – escritora de livros infantis e que usa a figura do próprio filho para criar um personagem cego com poderes que o ajudam a salvar a América de alienígenas e comunistas – mas, mesmo longe, não consegue fugir da influência materna que busca se fazer presente a todo tempo.
O personagem interpretado por Edward Albert se mostra extremamente organizado e forte com relação a sua deficiência, demonstrando – em muitos momentos – bom humor com relação à cegueira e outras deficiências (como na cena em que Ralph fala gritando com ele, mesmo sabendo que o rapaz não é surdo). A chegada de Jill (interpretada pela sempre divertida Goldie Hawn) causa um choque nessa vida organizada por trazer à tona velhas lembranças amorosas de Don e, por que não dizer, da própria Jill. Os dois jovens começam a manter uma relação extremamente forte – tudo num espaço de 24 horas até que a inesperada visita de Sra. Baker (Oscar de melhor atriz coadjuvante para Eileen Heckart) os coloca contra a parede num jogo de palavras que se desenvolve maravilhosamente ao longo da ação dramática.
A figura dos jovens apaixonados surge como representação do impulso sexual e da imaturidade que necessita de uma voz racional e moralista – muitas vezes forte e castradora – representada pela figura da Sra. Baker, a qual nunca deve ser encarada como vilã e, sim, como mãe preocupada cujas ações, por mais que sejam radicais, são guiadas pelo seu amor materno. A ela cabe a incumbência de abrir os olhos dos dois jovens, demonstrando ao filho que, apesar de se apresentar forte o suficiente para lidar com os obstáculos físicos que o cercam, ainda existem obstáculos sentimentais os quais ninguém é capaz de enxergar se não os vivenciar e encarar – elementos que formam uma das mais belas seqüências do filme. Além disso, demonstra à Jill que, embora tenha se relacionado com vários homens e até mesmo se casado e se divorciado com menos de vinte anos, tais ações se deram por imaturidade (quem sabe até pela falta que a figura paterna possui em sua vida).
Do ponto de vista técnico, interessante ressaltar que, apesar de ser uma narrativa que se desenvolve, basicamente, em um único ambiente, a iluminação cênica e a decupagem realizada pelo diretor Milton Katselas proporcionam, em vários momentos, belos planos (em especial aquele em que a Sra. Baker abraça seu filho, enquanto ele está sentado em um banco). Simples e eficaz, sensível, bem-humorado e poético – belo filme que (apesar de seus quase quarenta anos) continua atual em sua temática, a liberdade proporcionada pelo amor. E termino este texto contrapondo à temática da narrativa, uma fala da personagem Jill que é posta à prova ao longo do filme; ela diz que não quer se apaixonar, pois tal fato limita muito as pessoas e o que ela deseja é ser livre como as borboletas. Irônico o que a vida é capaz de nos revelar.

terça-feira, 28 de julho de 2009

POETA LÍRICO-AMOROSO

Provei do seu pecado
e chorei de dor
por saber que o amor
é privilégio de poucos,
banalidade de muitos
Jogado fora aos prantos,
penso no instante
em que sonhei acordado
e acordei em seus braços
abarcando-me em si
Transformava-me em puro caso,
em cujo sonho sado
nada mais era
que o maior dos pecados:
Amar sem ser amado

Mario Chris

terça-feira, 21 de julho de 2009

TEORIA DA INSANIDADE

Servos da luz, olhai-me
sois a esperança que nos resta
do futuro que nos espera
que heis de mudar
Não pensai, vós,
que mentes sãs são capazes
(Não são!)
Precisamos de mais
Insanos, sois capazes de idealizar
a nova verdade futura
da presente sociedade corrompida
Insanidade! É isso que querem
Mudai isso, Insanos, sois fortes
suficiente para terem
no futuro que vos espera
um lugar ao Sol
Servos da luz, fazei me orgulhoso
assim, não temerei o que digo
em um novo mundo construído
sem guerras e injustiças
criadas pelos sãos
que nada mais são
do que Servos da escuridão

Mario Chris


Tenho um carinho mais que especial por essa poesia, pois a escrevi ainda no segundo ano do Ensino Médio – no, não tão longínquo, ano de 2003. Engraçado que, remexendo meus arquivos, descobri que ela é uma das únicas poesias que escrevi e que estão datadas (mais precisamente 07/10/2003). Lembro que essas poesias surgiam no meio de alguma aula tediosa: geralmente as aulas de química, física, matemática ou inglês. Resolvi postá-la por ser uma das primeiras poesias que assinei com o pseudônimo Mario Chris.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Ferreira Gullar - parte 1

Ferreira Gullar é considerado o maior poeta vivo do Brasil. Na segunda vez em que estive em sua residência, acompanhado de alguns amigos de faculdade, tive a oportunidade de realizar um ótimo bate-papo sobre literatura brasileira – em especial, as tendências que ela assumiu e assume para o futuro. O poeta falou sobre Flip, religião, arte contemporânea, música, internet, além de recitar um poema de sua autoria – inédito – com o qual começo essa série de reflexões sobre Gullar.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

DEZ MINUTOS EM VISTA ALEGRE

- Dezessete anos... Você...
Dezessete anos e um pacto de vida concedido por Deus é rompido pelo estalo seco do revólver – manchado de sangue.

Pablo amanheceu diferente naquela manhã – tinha um sorriso maroto no rosto; típico da idade. Em seus poucos dezessete anos, havia experimentado muitas coisas incomuns a sua época, mas, naquele dia específico, provou a sensação de se tornar homem. Deitado ao lado da mulher que o trouxera à maturidade, orgulhava-se de ter levado ao orgasmo uma senhora casada, dezenove anos mais velha. Nem sabia direito o que era aquilo, apenas deixou que ela agisse, confiando em seus toques e movimentos. Já tinha um bom conselho para seus futuros filhos e netos.
Já tinham passado cinqüenta minutos das sete horas e Camila despertava nos braços de um passivo rapaz, que, segundo suas próprias palavras, descobrira o que era a vida momentos antes. Ela, casada, mãe de um filho caiu atraída pela precocidade do primo de seu vizinho e ignorou tanto o casamento de dez anos quanto a prole de quatro.
Nesse instante, ouviu-se o barulho da porta e os passos pesados de um saudoso marido. A sensação de sonolência sumiu rapidamente e um olhar desesperado encontrou o jovem olhar perdido de Pablo. Ele, desentendido, ouviu as palavras desencontradas de Camila e desnorteado assistiu a entrada triunfal do enganado seguida das lágrimas de raiva e da sede de vingança. Tentou levantar-se, hesitou – ainda estava sem roupas -; ouvia as tentativas de explicação da esposa infiel. Pablo busca a saída com olhares e se imaginava longe dali – onde fora se meter... Daí veio a primeira pancada – no rosto. Foi agarrado e puxado. Camila tentou segurá-lo também, mas a força do marido traído foi maior, tamanha a raiva. Contra a parede, nu, Pablo se deu conta de que estava sob a mira de um revólver – sob a mira de um homem irado.
- Acha bonito ir para a cama com a mulher dos outros? – começava a contagem regressiva.
Camila, em prantos, dividia-se entre implorar pela vida de Pablo e tentar entender o que havia saído errado em sua pulada de cerca. O marido chegou muito de repente, mal sabia ela de onde. Ele havia viajado? Estava no trabalho? Trabalhava a noite... Quem sabe? Talvez estivesse com outra mulher e esse fosse o motivo para sua traição – vingança... Não conseguia seguir uma linha de raciocínio lógica. Lembrava que trouxera Pablo consigo até seu apartamento. Chegaram tarde – passavam das duas da manhã. O pequeno Matheus acordou sossegado pelos carinhos da mãe e foi levado para sala onde conheceu um novo amigo. Pablo sentiu-se na necessidade de confortar o menino que ria, ainda que sonolento, de suas palhaçadas juvenis. Logo depois, a criança foi levada para a casa do vizinho – o primo era cúmplice da primeira noite do pequeno Pablo. Ela apertou os olhos e voltou à realidade. O marido dava tapas no pobre rapaz.
Pablo, sem palavras, deixava a mão pesada de seu futuro algoz alcançar seu rosto com raiva. Doía na face, doía na consciência. As lágrimas caíam em seu rosto – voltava a ser uma criança imatura. Camila mentiu... Ainda havia muita coisa a ser descoberta na vida. Queria apenas que aquela noite fosse perfeita e, de fato, foi. No momento mais esperado, cresceu – não podia se apresentar como uma criança, apesar do nervosismo impedir; ela gostou. E, disso, ele se orgulhava. Quantos podiam contar a história que ele poderia a partir daquele dia. Não podia. Tinha convicção de que não sairia vivo dali e chorava por isso.
- Quantos anos?
- Dezessete, Paulo. Pelo amor de deus...
- Não falei com você...
Então esse era o nome dele. Finalmente havia sido apresentado ao amante de sua esposa. Talvez ele já soubesse seu nome, deviam ter rido durante toda a noite: “aquele corno”. Paulo não tirava sua arma da cara daquele ridículo bebê chorão. Só não entendia o que havia acontecido de errado em seu casamento. Um garoto de dezessete anos na cama com sua esposa. E seu filho onde estaria? Olhou atentamente para sua vítima e percebeu que parara de bater nele. O rosto a sua frente estava bem avermelhado – pelas pancadas, pelo choro interminável. Seus sentimentos misturavam-se, não movia o revólver um centímetro sequer. Como aquele garoto pudera fazer isso? Olhou atentamente nos olhos do pequeno, esbanjava ódio:
- Dezessete anos... Você...
Dezessete anos e um pacto de vida concedido por Deus é rompido pelo estalo seco do revólver – manchado de sangue. Pablo, de olhos fechados, caiu encolhido no canto com a terrível sensação de ser encontrado nu pela perícia. Ele podia ao menos tê-lo deixado colocar as roupas – a morte seria mais digna:
- Foi sua primeira vez, não foi?
O jovem abriu os olhos e enxergou, de baixo para cima, Paulo a sua frente. Sobre a cama, o sangue de Camila manchava os lençóis e, na rua, já dava para ouvir as manifestações de espanto que acordou todo o quarteirão. Ainda espantado, ainda com lágrimas saindo dos olhos, Pablo acenou que sim:
- Some daqui antes que eu me arrependa do que eu fiz e eu sei que eu vou me arrepender.
Tremendo de medo, o pequeno Pablo pegou suas roupas e saiu – sem reação nenhuma. Sem reação quando viu Camila tirando o vestido; sem reação quando sentiu-se dominado por ela; sem reação quando o marido chegou; sem reação... Pecou, ejaculou, morreu, renasceu... Quantas experiências para os futuros filhos e netos.
Do lado de fora, muitas pessoas se aglomeravam ao redor do prédio – não conseguiu olhar ninguém. Apenas caminhava sem redirecionar os olhos para lado algum. A sua frente, o comércio despertava para mais um dia de trabalho – eram oito da manhã e Pablo já havia visitado o céu e o inferno, duas vezes.

MARIO CHRIS