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terça-feira, 9 de agosto de 2016

ELEFANTE


Sob os pés calejados e roídos,
folhas secas estalam
um eco doído
e, afastado do urro das multidões,
adentra a sombra da floresta,
carregando o peso de si
para, enfim, sem alarde,
encontrar paz e silêncio
em seu tão desejado fim.
Mario Chris

terça-feira, 10 de maio de 2016

O ABRAÇO

Das saudades a maior,
das saudades a mais bela.
De um encontro a ansiedade
à dor da separação.

Um soluço surdo ao som da cama...
O silêncio de uma paixão.

Se o abraço renasce em versos,
é porque resiste ao tempo -
é das saudades a mais bela,
é sentir com o coração


Mario Chris

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

CRISÁLIDA

Fechar os olhos, quem me dera...
Encarar o breu que desespera,
que obriga a ouvir, sem querela,
a respiração ofegante dela:

Minha alma, que me abraça,
sem saber quem sou ou que me resta,
meu coração amassa,
minha coragem testa.

Abre os olhos! Grita ela,
e atenta ao mundo que te cerca,
não sejas aquele que te vela!

Pela fronte, corridas lágrimas
do eu que se revela
descem em sinal de expurgo 
por um mundo que se esfarela

Mario Chris

terça-feira, 14 de julho de 2015

INTERTEXTUAL

Quando nasci, um espírito franco,
desses que vivem no além-túmulo, disse:
"Vais encontrar o mundo. Coragem para a luta!"
Foi assim, através das intertextualidades da vida...
Tornei-me vanguarda de mim mesmo.
Da flor do lácio retiro minha expressão
e, se às vezes me calo, o silêncio revela minha intenção:
Nem alegria, nem tristeza...
Poesia, então.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

KAFKIANO

Aos olhos da engrenagem, um parafuso e nada mais. Voltas, voltas sem revoltas e outra volta sem vagar. Uma missa de corpo presente constante. Não há do que reclamar, todos querem seu lugar. Tenta fugir de volta a si, mas a engrenagem insiste. Lança os dentes sobre o parafuso – tritura, engole. Em meio às ferragens retorcidas, ainda é possível visualizar a esperança perdida. Mas é muito rápido, pois a engrenagem não para de funcionar.


Mario Chris

quarta-feira, 22 de abril de 2015

INQUIETAÇÃO

Mario, peço-te um minutinho
da tua atenção
Há mais versos escondidos
nos limites do desespero
que tua falsa mágoa e melancolia
são capazes de discorrer
Alegra-te, então...
Tira o veneno da boca
Costura, ao menos, o pulso esquerdo
e não desistas dele
Há muito a desvendar ainda

Pode dormir agora, Mario
em paz com a agonia que te aglomera
Acima de tudo, em paz com a poesia que te cerca

Mario Chris
Rio de Janeiro, 20 de abril de 2015

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

TRÁFEGO INTENSO

Tráfego intenso causa séria retenção na esquina, sem previsão de solução.

Seria um acidente? Um acidente com morte?
Seria a incompreensão do homem em dar passagem?

Os motoristas inconformados com as horas perdidas buzinam incessantemente...

Não percebem que podem abrir as portas e continuar o percurso caminhando.


Mario Chris

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

POETA INSENSÍVEL

Na calva escura da lagoa
um pescador solitário afunda
O lodo fofo suga o pescador
na calva escura da lagoa

Seu suplício consentido,
ao chorar os peixes perdidos,
é percebido por um poeta insensível
que na calma ociosa do espírito
apenas escreve.


Mario Chris

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CONFABULAÇÕES

Se nesta vida nada faz sentido
Se nada faz sentido no amor,
no humor, no torpor
sem calor...
Ao menos nada
contra a corrente intrépida do rumor


Mario Chris

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

SOBRE O ENCONTRO


Encontraram-se na mesma esquina de antes e deram um sorriso discreto. Voz baixa, quase inaudível:

“Como está?”
“Bem e você?”
“Também...”

Não se entendessem tão bem, passaria despercebido.
Abraçaram-se como à eternidade e seguiram caminho satisfeitos de se amarem com tanto respeito.

Mario Chris

Rio de Janeiro, 30/10/2014

(A Nico)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ATEÍSMO

Para o mundo! Eu quero descer!
Mas na hora do rush o tráfego é intenso
Com todo respeito, seu motorista, o senhor não existe.
E riram juntos da piada da criação

Mario Chris


Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2014

TRISTESSE

Triste não é ser triste
É sentir a aurora brotar no papel
incapaz de fazê-la brilhar no céu
Triste não é ser triste
É fingir um sorriso acalorado
que esconde um coração angustiado
Triste é um discurso amargo
disfarçado de amor alado
Um espírito solitário
por si mesmo abandonado

Mario Chris
Rio de Janeiro, 29/10/2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

PAIXÃO CONCRETA

Beijou a esquina como se não houvesse amanhã. Não havia amanhã. Sem paixões fugazes nem amor verdadeiro. Tudo esvaiu-se em cor de pétala no asfalto. Tudo lançado ao ar vinte andares atrás.

À multidão fumegante resta o dom da dúvida em um conglomerado de porquês.

O casal se abraça. Amam-se mais que nunca.
A criança chora assustada com o espetáculo da vida.
A senhora se benze, despachando o defunto.

A carta balbucia “amém”, enquanto a esquina engole a todos em um ato de comunhão.

Mario Chris

Rio de Janeiro, 13 de outubro de 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

CONTRACORRENTE

É muito estranho abrir a porta e não ter esquina. Só uma reta sem placa nem seta. Por onde todos caminham em fila indiana. Cabeça baixa... vida ordinária

Que fizeram da esquina?


Retificaram para o bem de todos.

Assim é possível caminhar sem ter que olhar para os lados.

É muito estranho abrir a porta e não poder...


MARIO CHRIS

Rio de Janeiro, 11/10/2014

domingo, 7 de setembro de 2014

AS CRIANÇAS

           As crianças exercem sua liberdade nas ruas quando, soltas das amarras das mãos dos adultos, podem caminhar livres pela cidade. Todavia um limite é posto – até para que se exerça o poder hierárquico da instituição familiar. Esse limite é a esquina, para além da qual não se deve ir.

A esquina é um território dominado pelos adultos e, sendo assim, exercem seu direito de criar todas as formas de narrativa cuja veracidade é incontestável – lembremos da hierarquia.

A esquina é perigosa! Só pode ir até a esquina!

Mas a infância não deixa de ser o campo da contestação e explorar a esquina torna-se necessidade e se a repressão insistir em se impor, a resposta malcriada fala por si só.

Vai ver se eu estou lá na esquina!
Mario Chris
Paris, 24/06/2014

O MENDIGO

            Cansado do excesso de informação, o mendigo destoa do restante e relaxa na esquina. Centenas de passos o cercam, o ignoram e – de forma naturalizada – o condenam. Entretanto ninguém entende a cidade como o mendigo e naquele curto espaço de tempo, descansando diante da esquina, observa o que ninguém mais nota. A cidade.

Faço parte disso tudo, pensa. Entende que a cidade sem mendigo ou mendigo sem cidade é como esquina sem dúvidas. Para que lado ir?

Não existe lado certo – se é o certo que tendemos a procurar. Cada canto da esquina é um novo mundo esperando por ser descoberto. Mas a ninguém interessa tal premissa. Mas ao mendigo interessa.
Levanta e segue pela esquina. Por qual canto? Não interessa.
Mario Chris

Amsterdã, 23/06/2014

domingo, 1 de junho de 2014

PLATONISMO

Foi na esquina que aprendi a ler. O j seguido do o fechado, formando jo. O s, estranhamente com som de z, seguido do e aberto. E agora, José? A esquina é um passado que insiste em estar no meio do caminho. Ah, minha esquina querida...

Se tanto saudosismo fosse capaz de trazer de volta o que já se foi.

A esquina, mar de soluços descompassados.


A esquina soa perpendicular somente por resquícios da razão, pois do ápice da percepção – fruto da distância carnal – a esquina sempre será um sinuoso espectro de emoções tal qual um amor platônico, um amor barroco.

Mario Chris

sábado, 10 de maio de 2014

A ESQUINA

Saltou do ônibus à esquina e contava menos de trinta. Sentou-se ao meio-fio com toda sua mocidade marota contrastada por um ar de maturidade que fazia questão em exalar. Em meio a tantos transeuntes e automóveis estranhos, reconheceu-se como parte integrante da esquina.

Todavia sua condição não era fruto do mero instante. Era a memória com toda sua lealdade traíra. E além, pois sabia – embora não lembrasse – que tinha uma relação placentária com a esquina e sempre que sentia-se aflito, recorria a ela como recorro à escrita.

Somos um só: personagem, narrador e escrita.

Diria mais: somos todos esquina.


Mario Chris

NÃO SEI BRINCAR

Já tomei vodka, hoje tomo mescalina
Tenho todos os sentidos realçados menos um, o da razão.
E se me chamam imoral,
foda-se o padrão!
Uns têm leveza, outros não.
Já perdi chave e documentos
Agora perco a noção.

No carnaval das sensações

sinto como ninguém o ritmo do meu coração.
E se o japonês traz haxixe,
entra na roda, meu irmão.
Pois na criatividade sem graça de hoje
só nos resta pandeiro e violão.
Cantemos, então...

Mario Chris

quarta-feira, 9 de abril de 2014

UM SORRISO DOMINICAL

            Lembro-me de minha família. Dos domingos sentados à mesa. Do almoço servido quentinho em uma esquina tijucana. Entretanto...
            Não eram os almoços de domingo os verdadeiros laços. Os almoços de domingo tinham um quê de burocrático – algo de tradicional cuja realização pairava entre o obrigatório e o racional. Os sorrisos dominicais limitavam-se ao bater ponto no domingo de folga.
            Bom mesmo eram os domingos sob a maresia da Região dos Lagos. Aqueles domingos eram incessantes, sem intervalos semanais. Acordar pela manhã ao som da cozinha ganhando vida. Flanar pelos cantos da casa sentindo os sorrisos cheios de liberdade que desembocavam nas tardes na praia, culminando em um pôr-do-sol inviolável. As viagens à Região dos Lagos eram os verdadeiros laços.
            Hoje, ainda inebriado pelas lembranças, quando acordo em uma esquina de Copacabana, finjo ser o som da cozinha as conversas de outrora. Fecho os olhos e imagino pelo menos um sorriso dominical que sirva de elixir para mais um dia.
Meu sorriso dominical tornou-se um laço maquiado com o pó da tradição e a sombra da burocracia.
Mario Chris

Rio de Janeiro, 09/04/2014